São engraçadas essas maquetes que apresentam pessoas, seja de maneira estática, seja em movimento, sendo estas últimas ainda mais cômicas. As maquetes para vender unidades condominiais em edifícios.
Ali a gente aparece não como eles acham que a gente é, mas sim como eles acham que a gente quer se ver.
Aparecemos plácidos como coelhos, sempre sorrindo, refrescados, saudáveis, fortes. Realizados, bons humanos brancos.
Sempre existe, contudo, a figura do afro-brasileira em algum lugar onde não pareça submisso, para satisfazer o politicamente correto e para satisfazer a nossa inconsciente hipocrisia de achar que queremos vê-los ali, mas se não estiverem, exercemos nossas teatrais hipocrisias anti-racistas.
Nos movemos como robôs, sorrindo, com roupas neutras, cretinas, homens não olham para a bunda das mulheres depois de passar por elas, e elas não tiram meleca escondido, além de peidar com os vidros fechados por causa do ar condicionado, e por estar sozinha.
São pessoas felizes, com seus filhos, sorrindo, ao lado da piscina com outros habitantes bebendo bebidas coloridas, usando a academia do condomínio no final da tarde, comendo coisas de plástico em casa ou na rua, e sorrindo depois.
Sempre sorrindo. Parecem bem resolvidos. Não sei se isso poderia ser verdade, pois moram em latas de sardinha, estacionando seus veículos em vagas minúsculas, adotando comportamentos massificados, escritos em livros de regras por eles acatados.
Com ciúmes do vizinho.
Aguentando cachorros de apartamento e o cheiro de cebola e alho das unidades habitacionais do entorno, quando cada um deles inicia suas atividades de alimentação.
O cheiro de pinho com mofo nos corredores, só para abraçar uma vida que nem sabem se é a deles.
Mas tem que ter família, filhos, colégio, jornal nacional, cachorro, e o edificante trânsito ao amanhecer, com seus perfumes típicos. Ansiedade e ira disfarçados. Janelas fechadas. Vidros pretos. Som. Continuam todos enclausurados.
Amamos o próximo só quando não é o nosso vizinho.
Fugere urbem.
"Fugere urbem é uma expressão em latim que significa "fugir da cidade".
Originalmente usada pelo escritor latino Horácio, foi adotada como lema pela literatura árcade para simbolizar o poeta literário que se desloca da vida agitada e corrida da cidade e vai para a calma zona rural.
Originalmente usada pelo escritor latino Horácio, foi adotada como lema pela literatura árcade para simbolizar o poeta literário que se desloca da vida agitada e corrida da cidade e vai para a calma zona rural.
Tal princípio é reforçado pelo filósofo Jean Jacques Rousseau, que diz que a civilização corrompe os costumes do homem, que nasce naturalmente bom."




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