"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."
Fernando Pessoa
Como enunciado em título de filme do Felinni - "e la nave va" - pois hoje eu digo "e la pioggia va...".
E vai no seu compasso sereno, no seu ritmo, um ritmo "noir", ritmo de outono, intimista, saudosista, preto e branco, como se nunca fosse embora - cópia de uma cópia de si mesmo - monotônico sem ser monótono - monólogos sob a mesma intensidade de luz e som - terreno fértil não só para as plantas mas também para os escritos.
Em imagem, poderia ser assim representado o dia:
Em imagem, poderia ser assim representado o dia:
Chega bem-vinda a chuva, ao contrário dos irritantes alto-falantes que divulgam reclames ainda mais irritantes, sempre com aquelas vozes lançadas como mísseis de som em volume indecente, onomatopaicas, teratológicas, afetadamente entusiásticas, sempre de mau gosto, como os seus alvos, e sempre com alguma música tocando ao fundo, músicas sempre eméticas.
(É HOJE À NOITE NO SALÃO CAIXEIROS VIAJANTES........MOÇAS COM ENTRADA LIBERADA E RAPAZES ATÉ A MEIA-NOITE NÃO PAGAM INGRESSO........APÓS A MEIA-NOITE PAGA INGRESSO E TEM DIREITO A CERVEJA LIBERADA......NÃO PERCA É HOJE A NOITE NO CAIXEIROS VIAJANTES A PARTIR DAS VINTE E DUAS HORAS...PATROCÍNIO MENDES PNEUS.........AQUELE ALI DA RÓTULA DO CEMITÉRIO E FARMÁCIAS ALEMÃO........A AMIGA DA FAMÍLIAAAAAAAAAA.................................).
(É HOJE À NOITE NO SALÃO CAIXEIROS VIAJANTES........MOÇAS COM ENTRADA LIBERADA E RAPAZES ATÉ A MEIA-NOITE NÃO PAGAM INGRESSO........APÓS A MEIA-NOITE PAGA INGRESSO E TEM DIREITO A CERVEJA LIBERADA......NÃO PERCA É HOJE A NOITE NO CAIXEIROS VIAJANTES A PARTIR DAS VINTE E DUAS HORAS...PATROCÍNIO MENDES PNEUS.........AQUELE ALI DA RÓTULA DO CEMITÉRIO E FARMÁCIAS ALEMÃO........A AMIGA DA FAMÍLIAAAAAAAAAA.................................).
Ora, deveríamos poder, no mínimo, optar por não ter contato com anúncios publicitários quando não nos fossem convenientes. Contudo, arranjaram um jeito de despejar este lixo em nossas cabeças, queiramos ou não.
Evidentemente que, em um mundo adequado em termos de racionalidade, algo que reside apenas no campo das elucubrações aleatórias, deveríamos poder escolher a possibilidade de não ouvir tais reclames, pois, quando assim desejamos, sabemos onde encontrar, e de maneira bem mais silenciosa e menos agressiva esteticamente.
Neste mesmo mundo utópico, o Renan Calheiros seria deportado para uma ilha, para viver confinado entre outros "canalheiros", e seria açoitado uma vez por semana.
Mas, retornando aos "Escritos de Outono", tema bastante mais aprazível - a gente sempre lembra do Canadá no outono, mesmo nunca tendo estado lá.
Não sei porque. Inconscientes coletivos...símbolos...novos amores entre folhas...e blogs...e gaivotas...e tons de roxo e amarelo e corações roxos...assim como os demônios...
Curiosidade: a cor roxa é formada a partir da mistura entre as cores vermelha e azul, de modo que poderíamos até acabar com esta patetice de colorados e gremistas e criar um time só. Isso resolveria muitos problemas.
Vejamos, a propósito, algumas curiosidades sobre esta cor, a fim de que possamos entender não apenas o outono, mas, por vezes, a própria subjetividade, quando a ela estiver ligado o roxo, ou mesmo a influência das tonalidades de céu que prevalecem nestes dias cinzas e chuvosos - purple rain (sem prince por favor):
"A cor roxa (ou púrpura) está ligada ao mundo místico e significa espiritualidade, magia e mistério. O roxo transmite a sensação de tristeza e introspecção. Estimula o contacto com o lado espiritual, proporcionando a purificação do corpo e da mente, e a libertação de medos e outras inquietações.
É a cor da transformação.
O ambiente roxo é misterioso e místico, sendo a cor apropriada para um local de meditação. Pode ser uma cor depressiva e melancólica, se usada em excesso.
O roxo é uma das cores litúrgicas na Igreja Católica que se usa no período da Quaresma ou nas missas pelos mortos. Durante a Quaresma, a cor roxa é usada nos paramentos dos sacerdotes e na decoração das igrejas. Para os católicos, o roxo tem o significado de melancolia e penitência."
Para alguns, estes dias cinzas e com uma chuva que insiste em fazer-se presente, são feitos com notas de tabaco, couro, café, luzes amarelas, escritos, Jazz e gorgonzola. A terra e seu aroma úmido.
Para outros, tristezas antigas que assaltam suas assoladas e frágeis existências, ligações para o CVV, antigos vazios, perplexidades assustadas, reflexos e reflexões mórbidas etc., ou como diz o Jim Morrison, "when you are strange, faces come out of the rain".
Só se deve escrever de dia quando está nublado e chovendo, e, de preferência, frio, e de preferência ouvindo Jazz, mas este elemento pode estar presente com chuva ou lua.
Ou então não se deseja escrever, se deseja grafar letras duras e secas em superfícies ou mecanismos compatíveis com tal intento.
Aliás, se dias assim pudessem ganhar uma trilha sonora, imagino que esta seria perfeita (Lee Morgan - All The Way):
Caso contrário, escreve-se à noite, onde a sintonia com os instintos é mais apurada, mais aguçada, menos tensa, mais profunda e feérica, menos obtusa, mais virtuosa e realista, movimentos que calam na rua, acordam movimentos da alma.
São dias de abrir janelas da alma e observar por dentro das janelas da casa. As velhas e boas gotas de infância (por isso as vezes eram desfocadas...mas estavam sempre lá) que escorrem pelo vidro. Podem projetar lágrimas alegres ou tristes.
Nestes dias apenas os horizontes externos ficam menos definidos. Os internos, ao contrário, mais claros, seja para que observemos abismos, ou céus. Ou os dois.
"Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." Nietzche
Ou não projetar lágrimas. Apenas momentos, em gotas tão fractais quanto nossas lembranças (lembrei do Blade Runner:
"eu vi coisas que vocês humanos nunca acreditariam. Ataquei naves em chamas nas bordas de Orion. Observei Raios-C brilharem na escuridão dos ares dos Portões de Tannhauser. Todos estes momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva: hora de morrer."
Janelas de casa incentivam as da alma em dias de chuva, com suas imagens griss, com seus cinzas em escalas de prata, emaranhados nas nuvens, um prata elétrico, refrescante, feroz, entre ventos e ondas que se tornam mais revoltas, graves, ameaçadoras, caudalosas, todas em prata opaco e branco.
O mar também sente melancolias. O mar que teima em continuar.
Incessante torrente que não finda como não é a vida...por isso traz vida...por isso é magnético aos mortais...afasta o que não é vida...invade-nos de pensamentos...vagas de vagos pensamentos...quase hipnóticos em som e forma, como é o mar. Isso lembra Thoreau:
“Fui à floresta porque queria viver deliberadamente, encarar apenas os fatos essenciais da vida, e ver se eu poderia aprender o que ela tinha a ensinar, e não, quando eu vier a morrer, descobrir que nunca vivi.
Eu não desejei viver o que não era vida, estar vivendo me é tão caro; nem desejei praticar a resignação, a menos que fosse necessário. Eu queria viver profundamente e sugar toda a essência da vida, viver tão robustamente tal qual um espartano e jogar fora tudo o que não era vida (…)” Thoreau
Os cachorros também devem experimentar melancolias, ficando, igualmente, mais pensabundos, ensimesmados, oníricos, entre memórias sem tempo, vagas como flashes, caóticas como as bolinhas voando em tempos de antanho, aquelas que eles tinham que resgatar para os seus donos, pois as danadas insistiam em tentar fugir.
E assim la pioggia va, entre pingos e letras, cadências parecidas, talvez por isso afins. Entre notas musicais colocadas no lugar certo. Entre harmonias. Ou não.
E assim estão as coisas por aqui, "My Funny Valentine".








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