"DIÁRIO DE RORSCHACH - 13 de outubro de 1985
Dormi o dia todo. Acordei às 16:37, com a senhoria reclamando do cheiro. Ela tem cinco filhos de cinco pais diferentes. Deve enganar a previdência social. Logo vai anoitecer. Lá embaixo a cidade grita como um matadouro cheio de crianças retardadas. Nova York. Sexta à noite um comediante morreu em Nova York. Alguém sabe por quê. Lá embaixo... alguém sabe. O crepúsculo fede a fornicação e más consciências. Acho que vou me exercitar."
Não costuma ser bom quando morre alguém que pertence ao grupo de nossos afetos mais próximos.
Por outro lado, não sendo uma relação daquelas mais íntimas, somos simplesmente indiferentes, ou, quando muito, representamos a tristeza, atores natos que somos, uns melhores, outros piores, mas todos sobem ao palco.
Aliás, quando vejo as evangélicas e testemunhas de Jeová, com suas longas e neandertais melenas, medievalismos impostos por seus homens primatas e inseguros, sempre imagino que quando elas vão cagar, acabam sujando o cabelo algumas vezes.
Culpa de viver. Medo de morrer. Ódios segregantes disfarçados de boa vontade e amor ao próximo.
Reflito, igualmente, acerca da questão relacionada à extração de pelos. E odores.
Mas...retornando ao início desta manifestação, dizia que não costuma ser bom quando alguém passa desta para melhor (...), principalmente porque sabemos que um lugar nesta fila é nosso, apenas não tombamos ainda.
Às vezes é agradável quando alguém morre. Normalmente não faz muita diferença, e em poucos casos nos importamos realmente.
Contudo, uma coisa é certa. Ninguém se sente muito confortável quando morre um comediante.
Comediantes são como os palhaços, aparentemente divertidos, mas melancólicos em seus íntimos, por isso mesmo pintam as famosas lágrimas.
Riem de nós. Choram por nós. Choram por suas finitudes. Palhaços somos nós ao avesso, só que eles passam toda a existência nesta condição.
Antes palhaço na existência, portanto. Suas lágrimas são mais leves do que as lágrimas do ignorante aprisionado.
Comediantes são como as boas companhias, nos fazem esquecer que um dia vamos deixar a nossa condição existencial.
Quando os comediantes se vão, sentimo-nos órfãos, desamparados, pois se até eles desaparecem, que dirá nós criaturas pouco empolgantes, cultivando existências mecatrônicas.
Perto de comediantes os adultos viram crianças e têm medo. E as crianças têm medo. De todos.
Diante dos comediantes nós simples mortais ficamos pequenos. Sabemos de sua seriedade, mesmo que não pareçam sérios.
Ridendo castigat more.
Ao contrário do que acontece quando alguém de terno tenta nos convencer de alguma coisa, principalmente se isso for redundar em vantagens para a triste figura.
Mais fácil acreditar em um palhaço do que em um político ou vendedor de qualquer tipo de artigo, bem ou serviço.
Sempre ouvi mais verdades dos bêbados do que dos seres que correm de manhã, com suas garrafinhas contendo bebíveis isotônicos e faces amargas, missões que parecem nobres, justificativas patéticas para as suas vaidosas, pastosas e plastificadas existências. Vidas enlatadas.
Amargura que rasteja. Egoísmos ocultos revelados a cada grosseiro ato falho. Rusticidades suínas próprias de quem não consegue observar de fora a si mesmo..
Amargura que rasteja. Egoísmos ocultos revelados a cada grosseiro ato falho. Rusticidades suínas próprias de quem não consegue observar de fora a si mesmo..
Ou aqueles seres com bíblias embaixo de suas fedorentas e arrogantes axilas.
Comediantes são os adultos dos "adultos", e nós, normalmente, somos "adultos" donos de crianças mal-formadas, crianças que somos. Com medo. Todos.
Menos o comediante. Este sente melancolia, alegria e tédio.
Menos o comediante. Este sente melancolia, alegria e tédio.
O que difere o comediante dos seres comuns gira em torno da ignorância e da sabedoria.
E quem é ignorante, normalmente, tem medo. Por isso a coragem das crianças é relutante. Assim como a dos "adultos". Tocam a campainha e saem correndo.
E quem é ignorante, normalmente, tem medo. Por isso a coragem das crianças é relutante. Assim como a dos "adultos". Tocam a campainha e saem correndo.
Comediantes, pois, trocam o medo pela melancolia. E neles os "adultos" aliviam a sua aflita escuridão.
Pois esta noite dei mais um daqueles giros pelo lado selvagem da existência (lembrei do Lou Reed), pelo lado negro da Lua (lembrei do Pink Floyd) e eles não tinham nada para oferecer, como sempre.
Apenas pediam piedade, com seus bicos abertos como pássaros no ninho esperando por suas mães. Ou tentavam rapinar o que nunca terão.
E eu, um estranho no ninho. O comediante.




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