"Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares."
Hilda Hilst
Cachorros lambem os próprios sacos escrotais porque conseguem, o que nos leva a várias conclusões sobre nós mesmos, como por exemplo, o fato de que nós homens lamberíamos nossos escrotos se conseguíssemos.
E não apenas as bolas...mas deixa pra lá...
Isso não nos tornaria loucos, assim como várias atos assemelhados aos acima referidos que, escondidos, cultivamos no nosso dia a dia, humanos que somos.
Apenas somos, e somos o que somos, nada mais nada menos.
Não só lambemos nossos próprios cus, mas também somos capazes de construir obras incríveis, envolvendo desde arranha-céus a micro-chips.
Lambemos sacos e afins. Construímos grandes obras, e somos capazes de nos auto-aniquilar. Mistura fina.
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Noite cheia de relâmpagos. E trovões.
Foto captada na janela de cima. Não é de hoje, mas hoje estava parecido com o dia em que captada.
Além disso, para captar seis fotos úteis, 800 outras foram captadas e descartadas. Não é toda a noite que se está com toda esta paciência.
Os cachorros têm medo de trovões. Nós também. Tendências atávicas. Antes das tempestades vêm as calmarias, e vice-versa.
Agora, por exemplo, não há qualquer vento, e o mar não ruge. Os relâmpagos e trovões descansam. Mas vão prosseguir. Por que às vezes é assim e assim está há mais de 24 horas.
Em alguns instantes o vento inicia toda a ciranda de novo, trazendo os relâmpagos azuis e digitais, que desenham os contornos das nuvens que os produzem, e seus estouros feéricos, que gostamos com medo.
Quem o digam os que navegam.
Um medo bom, como os filmes de terror e as balas azedinhas que nos acompanhavam no cinema quando éramos crianças. "Azedinho-doce"...estava escrito no rótulo.
Talvez gostássemos dessas balas, pois tenham o gosto da vida - "azedinho-doce" - devendo sempre ser mais doce do que azedinha, caso contrário não gostaríamos tanto daquelas balas.
Por isso mesmo os animais devem odiar os fogos de artifício. E também porque sua audição é mais aguçada. E também porque junto com eles normalmente vêm grandes colapsos naturais ou humanos.
Tempestades e guerras.
Os animais temem os trovões porque são trovões, seus sinais de perigo são bastante evidentes, prescindindo de maiores ilações para que sejam compreendidos mesmo pelos animais.
E os homens têm medo de trovões porque estes indicam perigo e também em face de nossas tendências instintivas de defesa e tensão nascidas em face das inúmeras guerras estúpidas a que nos sujeitamos.
Homens têm medo de bombas. E devem ter.
Cães, por sua vez, já estão ao nosso lado o tempo suficiente para que também as guerras definam aspectos de seus traços instintivos, como temer as bombas.
Ainda mais quando seus ascendentes alemães faziam parte do esforço de guerra, treinados que eram para correr até tanques dos Aliados com bombas presas a seus corpos.
Estas bombas eram, então, detonadas, assim que os cães estavam exatamente ao lado dos tanques inimigos.
E por falar nisso, hoje eu acabei me distraindo muito em relação aos afazeres domésticos, aquilo que vem antes do que é bom, pois comecei a acompanhar, de tempo em tempo, as imagens de um novo documentário em vários episódios do History Channel, sobre a Segunda Guerra, algo como "Filmes Inéditos do Dia "d".
Ótimo. Adoro estes filmes e estes temas.
Porque eles, e não eu...destinos injustos, tanta gente nova morrendo como morrem as formigas quando caminhamos por suas trilhas. Tudo porque aquele merda daquele psicopata alemão resolveu brincar de dominar o mundo.
E até hoje temos que aguentar, muitas vezes em nome da democracia e respeito aos ideais alheios, esses carecas de merda desfilando suas suásticas, com aqueles coturnos, caras feias e suspensórios.
Normalmente são mimados esquizofrênicos que nunca sofreram ou sofrerão perdas importantes, e que, se sofrerem, não serão importantes
Ora, isso deveria ser simplesmente proibido. Nada justifica que certos grupos possam expressar certas crenças, como é o caso de não haver tolerância com a Ku Klux Klan, etc.
Além de serem proibidas tais manifestações, esse pessoal deveria mesmo era levar uma surra bem dada também, para deixarem de ser bestas cretinas. E fim.
Às vezes uma boa surra ainda tem a sua utilidade.
Mas essa gente sempre existirá, e as lições de suas existências devem fazer sentido. Procuremo-los. Entendamo-los. Entendamo-nos. Combatamo-los.
Mas prosseguindo, não só os que morreram pelos aliados deveriam ser homenageados, pois muitos "chucrutes" eram contra aquela guerra insana. Apenas estavam lá.
Estes filmes trazem mil épocas, em mil lugares, com mil faces que não só transmitem as coisas do fato de estarem vivas, como nos transportam àquela realidade infernal quando os analisamos com cuidado.
Certas imagens e relatos realmente são chocantes, mas temos que ter contato com estas realidades, pois, afinal, fazem parte do que somos, e esse pessoal deve ser sempre homenageado.
Às vezes até acabo dando uma caminhada até a cozinha, onde o rádio está ligado, abordando assuntos mais amenos, pois os relatos são profundos e impressionantes, como, aliás, costumam ser os relatos de guerra.
Numa das vezes que fui até a cozinha, o fiz em virtude de um relato sobre pessoas idosas que eram atiradas de prédios pelos alemães.
Ou sobre bebês que eram arremessados para cima e depois os soldados tentavam segurar com suas baionetas. Não caladas.
Mas, em geral, me agradam estes relatos de outras épocas, normalmente grafadas em diários aleatórios, tanto aqueles que retratam épocas marcantes na história, quanto aqueles que apenas contam estórias de seus proprietários anônimos...ou não.
Como aquele diário de meu avô que, vez por outra, tem algum trecho como objeto de análise em meus aleatórios escritos.
A propósito, meu avô serviu na Segunda Guerra, em postos de fronteira no sul do Brasil mesmo, onde apenas fazia patrulhar de dia, ou ir à praia, e aos cassinos pela noite.
Ora, estava certo ele, pois acaso fosse acionado, estaria sempre pronto. Não há mal algum em ocupar as horas vagas.
Tenho um diário dele, mas não trata de sua participação na Segunda Grande Guerra, mas de uma viagem à Alemanha, a trabalho, no ano de 1957.
Incrível, poucos anos depois do final de uma guerra que, uma vez mais, dizimou o território alemão, e lá estavam eles novamente a todo o vapor. Incrível mesmo o poder de recuperação de certos povos.
Mas, retornando ao tema relacionado ao Diário do meu avô, mesmo não tratando este sobre eventuais incursões no "front" da Segunda Guerra, é rico em impressões de uma Era.
E ao mesmo tempo cheio de vida, que, afinal, é o que se tem quando se a tem, e quando se a tem, é como se jamais fossemos deixar de ter. Intensa e frágil como é a luz de uma vela na escuridão completa sujeita a ventos.
Por isso mesmo esses diários são cheios de vida, e acabamos tendo vontade de beber em suas fontes.
Os que não têm vida, para tentar adquirir um pouco. Os que a tem, para ter mais, porque sempre queremos mais. Somos viciosos.
Vidas de vidas que se foram. Vidas que se foram trazendo vida aos que ainda estão. Vida e entendimento sobre nós mesmos, pois eles são nós.
É a coisa humana. Conhecimento em degraus...vidas retroalimentativas...e mortes cheias de vidas.
E mais vida é o que se deseja para aliviar as nossas tensões diante da finitude. Três coisas definem tudo: sexo, poder e finitude.
Esses diários, assim como as fotos e eventuais filmagens e mesmo pinturas, acabam por retratar o espírito de uma Era, a qual, mesmo que jamais volte, pode ser sempre visitada, em suas mil sensações possíveis, e seus aprendizados.
Pois como diz o Código do Samurai:
"Diz-se que o Espírito de uma Era é algo que não se pode resgatar. Este espírito se dissipa paulatinamente em face do avanço do mundo rumo ao seu fim. Um ano não tem apenas primavera ou verão. Um único dia, idem. Por esta razão, embora alguém possa querer mudar o mundo de hoje para resgatar o espírito de mil ou mais anos antes, isto não pode ser feito. Por isso, é importante fazer o melhor de cada geração. "
Devo admitir, contudo, e várias pessoas já devem ter sentido a mesma sensação, que muitas vezes tenho vontade de fazer parte de um cenário de guerra, ao mesmo tempo que, pela lógica, acabo afastando uma tal sórdida ideia.
Principalmente porque seriam tantas as ressalvas que eu imporia para participar de um cenário de guerra, se isso fosse possível como um jogo, que nem valeria a pena participar disso.
Melhor então é ler os relatos de quem estava com as calças todas borradas mas estava lá enfrentando a morte de frente, sem ressalvas.
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Muitas vezes há sentido em terminar as coisas por onde elas começaram. Então concluo com outra manifestação de Hilda Hilst, genial homenageada do dia.
"Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
a tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas se está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?
“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”
E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos azuis, brancos e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto."
Hilda Hilst a Federico Garcia Lorca"