sábado, 11 de julho de 2015

SONHOS MACHOS, EFEMÉRIDES E POEMAS EM LINHA RETA



Porque será que os homens só contam os "sonhos machos", olvidando propositalmente, se é que isso possa ser possível, a ocorrência de sonhos não tão ortodoxos quanto o discurso que propalam.


Por exemplo, quando sonham que estão sendo possuídos por outros machos, ou mesmo pelos seus pais e parentes. Amigos. Quando sonham que são rãs, chacretes, ou a Regininha Poltergeist. Ou a Sula Miranda. O Silas Malafaia se imolando. O RR Soares pastando. Ou quando transam vulgarmente com suas mães.


Sonhei que era o Dunga pronunciando frases racistas. Sonhei que era o Raça fazendo músicas "dunguistas".


Quando sonham que estão currando ou sendo currados. Quando sonham que são "putinhas". Quando sonham que estão esquartejando familiares, amigos, ou simplesmente desconhecidos aleatórios.


Adoram enaltecer as suas débeis e mundanas existências com contos de heroicos feitos, quando não passam de formigas felizes em esconder o que sabem de si mesmos, como fazem os publicitários em relação aos produtos que veiculam, e advogados em relação a seus clientes.


Como quando uma pessoa está conhecendo outra, e, distraído entre sorrisos calculados, e auto-enaltecimentos, esquece de referir que emite gases regularmente, e defeca. Todos só urinam, não peidam nem cagam.


Como nos desenhos do Pato Donald e família. Todos são amigos, tios, sobrinhos ou avós. Ninguém é pai. Mãe. Não possuem órgãos sexuais. Não copulam entre si. Gerações espontâneas. 


Propagandas enganosas. Códigos de Defesa do Consumidor de Humanos urgente!!!


Tá! É óbvio que eu sei porque estes sonhos mais "açucarados" ou nascidos em nossos esgotos internos não são revelados em público, mas não costumo deixar a verdade interferir na estória.


Na noite passada mesmo sonhei que era uma linda fada. Noutra vez sonhei que era uma prostituta vietnamita. Já sonhei que estava sendo comido. Não foi agradável, mas sonho é sonho. Loucos sarcásticos traiçoeiros.


Já sonhei que era um cupim. Uma abelha. Já sonhei com todas as doenças. Mas também sonhei com as minhas maiores musas, em cópulas inimagináveis. Quisera eu copular como meu alter ego.



Cheguei a sonhar com atos de felação envolvendo dragões e o Touro de Creta. O dragão não cuspia fogo, e o Touro não "cretou", foi só oral. No drive in.



Sonhos voam livres, são incontroláveis. Como os ímpetos inconscientes o são. Ou não tão ímpetos, mas mesmo figuras que habitam o inconsciente de cada indivíduo, porque possíveis, ou passíveis.


Meus sonhos preferidos são três: estar sozinho no mundo, voar e viver eternamente. Ah, e ficar em um céu de virgens depois que morrer. Única coisa que me aproxima da crença muçulmana. 


Pretendo não precisar explodir a minha bunda para que isso venha a acontecer. 

Sonhos são efemérides, como efêmeras são as coisas da vida, não da morte. Antes da vida há nada e para o nada apenas retornamos - "hello darkness my old friend".


O vazio é a forma. A forma é o vazio, como diz o Código do Samurai.


"Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains within the sound of silence


In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp."


Fatos como este de que não revelamos certos sonhos, bem como certas vicissitudes conscientes ou não, mas reconhecidas estas últimas pelo conscientes, reportadas que são pelos sonhos, devem ter inspirado e motivado Fernando Pessoa a compor o "Poema em Linha Reta". Talvez.


Poema em Linha Reta


Fernando Pessoa

(Álvaro de Campos)


"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

















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