sábado, 9 de abril de 2016

VINICIUS DE MORAES









SOMBRA E LUZRio de Janeiro , 1946

VINICIUS DE MORAES



"" I

Dança Deus! Sacudindo o mundo Desfigurando estrelas Afogando o mundo Na cinza dos céus Sapateia, Deus Negro na noite Semeando brasas No túmulo de Orfeu. 

Dança, Deus! dança Dança de horror Que a faca que corta Dá talho sem dor. A dama Negra A Rainha Euterpe A Torre de Magdalen E o Rio Jordão Quebraram muros Beberam absinto Vomitaram bile No meu coração. 

E um gato e um soneto No túmulo preto E uma espada nua No meio da rua E um bezerro de ouro Na boca do lobo E um bruto alifante No baile da Corte Naquele cantinho Cocô de ratinho Naquele cantão Cocô de ratão. 

Violino moço fino - Quem se rir há de apanhar. 

Violão moço vadio - Não sei quem apanhará. 



II

Munevada glimou vestassudente. 

Desfazendo-se em lágrimas azuis Em mistérios nascia a madrugada E o vampiro Nosferatu Descia o rio Fazendo poemas Dizendo blasfêmias Soltando morcegos Bebendo hidromel E se desencantava, minha mãe! 

Ficava a rua Ficava a praia No fim da praia Ficava Maria No meio de Maria Ficava uma rosa Cobrindo a rosa Uma bandeira Com duas tíbias E uma caveira. 

Mas não era o que queria Que era mesmo o que eu queria? "Eu queria uma casinha Com varanda para o mar Onde brincasse a andorinha E onde chegasse o luar Com vinhas nessa varanda E vacas na vacaria Com vinho verde e vianda Que nem Carlito queria." 

Nunca mais, nunca mais! As luzes já se apagavam Os mortos mortos de frio Se enrolavam nos sudários Fechavam a tampa da cova Batendo cinco pancadas. 

Que fazer senão morrer? 



III

Pela estrada plana, toc-toc-toc As lágrimas corriam. As primeiras mulheres Saíam toc-toc na manhã O mundo despertava! em cada porta Uma esposa batia toc-toc E os homens caminhavam na manhã. Logo se acenderão as forjas Fumarão as chaminés Se caldeará o aço da carne Em breve os ferreiros toc-toc Martelarão o próprio sexo E os santos marceneiros roc-roc Mandarão berços para Belém. Ouve a cantiga dos navios Convergindo dos temporais para os portos Ouve o mar Rugindo em cóleras de espuma Have mercy on me O Lord Send me Isaias I need a poet To sing me ashore. 

Minha luz ficou aberta Minha cama ficou feita Minha alma ficou deserta Minha carne insatisfeita.""

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