"A partir do Século XIX, estabelecemos hospícios, para ter a certeza e saber que os que estão ali dentro (descreveu Hamlet, em espírito "foucaultiano"), são loucos. logo, por consequência, eu não sou.
Se eu não estou no hospício, há uma chance grande de eu não ser louco.
Na Idade Média não havia hospícios, pois a separação entre loucos e não-loucos, era muito mais fluida. Na Idade Média (risos).
Hamlet nos diz que nós temos que estabelecer poderes, temos que estabelecer cenas, temos que estabelecer etiquetas, formalidades, porque eu não aguento constatar que todo mundo é um teatro, e que o papel que estou representando, e o que cada um representa na sua vida, é um papel insuportável.
Por que não é o papel que eu escrevi, não é o papel que eu queria, não é o papel que absolutamente eu desejava.
(...)
Quando todos dizem a mesma coisa, Hamlet diz que ser louco é a única possibilidade de ser sadio neste mundo. Quando todos dizem que são felizes.
Quando todos dizem isso, eu tenho que sr o louco da corte, pois este, ao final, dirá que é o único que ainda tem alguma luz de raciocínio, e alguma luz de felicidade, mesmo morrendo.
E é por isso que o amigo de Hamlet diz, ao final, o melhor elogio, diante de seu cadáver, e um pouco antes da entrada do Rei que finalmente restaurará a ordem na Corte. Diz o bobo: "bons sonhos, doce Príncipe...se tivesses reinado, serias um grande Rei".
Hamlet não reinou, pois chegou a um ponto tão grande de consciência e de sabedoria, que não precisou pegar a Coroa para ser Príncipe e Senhor de sua vida...
Hamlet foi o primeiro homem livre, autônomo, como diz Blum, o primeiro homem moderno, e Ele nos desafia permanentemente: "eu tive que matar toda a Corte e morrer, para chegar a isso...
Que preço eu, e cada um de vocês, está disposto a pagar para se tornar o que realmente é?
Hamlet pagou um preço altíssimo pela consciência de se tornar quem você é. É um risco e um desafio, e tal risco é tão grande que é compreensível porque, a maioria, não queira dar este passo.
Por que ser normal, neste mundo, é ser louco. E ser normal, enquadrado neste mundo, é se enquadrar apenas, e servir, à peça alheia, seguindo apenas um roteiro definido por terceiros.
E, ao final, como a morte é solitária, e sem a palma de ninguém, e a biografia completamente vazia, Hamlet morreu como um doce príncipe, tendo purgado do mundo todos os que viveram papeis distintos.
Preço alto, épico, teatral e retórico.
Nós podemos aprender com o Príncipe, a capacidade de viver em uma casca de noz, e descobrir que a felicidade, que a busca da consciência, que a crítica social, que a ação política, que o engajamento, não dependem nem da hora, nem do lugar, nem do momento, mas apenas e exclusivamente daquela casca de noz onde se encontra todo o universo pessoal.
Todo o universo está contido na minha consciência, você não será falso, vazio e comum, e pare de postar felicidades na internet.
Digam quem é que manda, pois até o momento, são eles que mandam.
Hamlet não encontrou a verdade, e matou a Corte e a si mesmo. Gostaria de um dia, ao envelhecer, um dia ficar sábio.
Hamlet atingiu, na morte, a consciência final, e, o resto, é silêncio..."
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