segunda-feira, 7 de setembro de 2015

TIRÉSIAS E AS VERDADES DO IMPROVÁVEL







"Como é terrível saber, quando o saber de nada serve a quem possui." 
Tiresias (ou Lou Cypher, interpretado pelo Robert de Niro no imperdível "Coração Satânico").


Outra noite sem vento. Outra noite, outra jornada.

Mas porque? Para que?

Porque eu gosto e para nada. Apenas para ser. Apenas para me libertar disso. É como um furúnculo. 

Não pretendo nada não sou um político, e não poderia pretender, já que digo a verdade, e a verdade nunca é bem vinda, a moléstia sim.

O peido gostoso e sonoro que se solta quando a namorada vai tomar banho. Por essas e por outras é bom fumar, pois em caso de emergência, é só acender um.

Nada como viver sozinho e poder cagar de porta aberta, peidar alto, e, principalmente, poder peidar, ou arrotar como um Viking. Como fazem os bons homens. 

Não precisar ficar toda a hora trocando as roupas de cama, não precisar tomar banho todos os dias, poder ficar "deprê" às vezes sem que fiquem querendo achar que somos fracos e chorões, do alto da frieza objetiva e ácida própria das mulheres.

Não precisar ficar fazendo pose de macho provedor, seguro e corajoso 24h por dia. Isso causa até ataque de pânico, ansiedade e ataque cardíaco. 

Poder ir a um puteiro sozinho ou com os amigos. Não precisar ficar inventando roupinhas diferentes todos os dias. Ir a restaurantes, festinhas e solenidades idiotas, com todas as obrigações masculinas inerentes. Poder dizer qualquer merda sem ter que explicar que não é um macho inadequado.

E elas reclamando o tempo todo. Mesmo em silêncio, sua especialidade.

Poder ir para a sacada às sete horas da manhã sem levar um susto ao ouvir um barulho proposital, olhar para trás rápido e ver uma pessoa desnecessariamente estressada e com tom imperativo, indagando sobre o meu comportamento não ortodoxo, e relacionando isso, veladamente, com a possibilidade de estar consumindo drogas escondido ou me comunicando com fêmea que não ela.

Além das perguntas habituais, do tipo, não vais dormir, não vais comer, tomaste banho, não tens vergonha de estar na janela a esta hora, o que vão pensar, trabalhaste ou só ficaste viaajando..................além de reclamarem sobre eventual falta de sexo, em tom jocoso e ameaçador.

Somos uma geração de homens criados por mulheres, fico me perguntando se uma nova mulher seria a solução para os meus problemas, como diz o Tyler Durden.

As mulheres são excelente companheiras e parceiras para ajudar a resolver todos os problemas que não teríamos se solteiros fossemos.

Sem falar que tentar satisfazer uma mulher não só é uma tarefa impossível, e, portanto insana, comparável a secar gelo, como também é debilitante, estressante e faz perder tempo que se pode empregar em coisas melhores.

Elas têm o dom espetacular de se tornarem as nossas principais críticas. 

Melhor que tenham um espaço determinado e depois vão cagar em suas casas insípidas e opacas, cheias de barulhos desnecessários, e diálogos ocos. Cheios de reservas e concessões.

Poder comer quilos de comida antes de dormir vendo trinta e dois filmes em sequência. Peidando.

Dormir com o cachorro junto quando quiser, pois, afinal de contas, ninguém fica doente é tudo bobageira. Só os chatos ficam doentes, pois são fracos não só de espírito, mas também fisicamente.

São os mesmos que não gostam de horário de verão. Aliás, hoje em dia descobri um teste ótimo para saber rapidamente se alguém é chato ou não.

Ora, para alguma coisa devem servir os cabelos brancos. É simples - é só perguntar se o ser gosta do horário de verão. 

Se a criatura humana responder negativamente, pode ser catalogada automaticamente como "chata". Procedimento comezinho e célere.

E quando todos se recolhem, as coisas começam a ficar mais claras. Não há mais imposição moral de tendências e comportamentos. 

Não há mais a possibilidade (ou ao menos está fica bastante reduzida) de que o sinal sonoro do aparelho telefônico seja acionado por seres mundanos e com aspecto ao mesmo tempo eufórico, ao mesmo tempo mecatrônico, ao mesmo conservador.

Conservadorismo é uma das exteriorizações mais contundentes da covardia e da falta de inteligência. Ausência de liberdade interna. Seres pesados que se arrastam em seu existir cínico externamente, e internamente vulgar.

Grilhões, correntes e tolos. 

Nas noites sem vento, todas as imagens ficam mais próximas, assim como nos dias de sol sem vento. Tudo é BEM melhor.

E nas noites sem vento, se pode ouvir tudo, e tudo vibra muito menos e tudo fica muito menos confuso.

Não é a toa que a Cidade de Osório é aquela que registra o maior índice de suicídios no Brasil, PROPORCIONALMENTE à população, obviamente.

E um tal fator é justamente atribuído ao vento em demasia nesta região do país, tanto é que um dos maiores parques eólicos da América Latina foi ali instalado. 

Entendi isso muito bem nas oportunidades em que fui acampar, caçar e pescar sozinho. As lonas batendo o tempo todo. O vento nos ouvidos que nada deixa ouvir. O som das árvores que nunca param de balançar. Os sons que não ouvimos em virtude do vento.

Tive que ir embora várias vezes devido ao excesso e continuidade de ventos. Começava a fica enlouquecedor, é essa a sensação que posso descrever cruamente.

Outra noite procurando o sopro da criatividade. Escrever o que...sobre o que...para que...e quando vejo já estou escrevendo. 

Pois o que quero é...simplesmente....escrever....e....para isso preciso apenas sentar e começar...e algum silêncio externo...e alguma noite...e alguma música interna...

Como disse, quando percebo, já estou na atividade da escrita, e, depois de desencadeada, não há como fugir do escrito, passamos a ser responsáveis por ele, e devemos terminá-lo.

Ficamos presos a ele e ele preso a mim. Depende de mim para ser gestado e nascer. E eu dependo dele para me libertar.

Contudo, já alguns parágrafos se desenrolam, e ainda não defini um tema para orientar o sentido do escrito. Um tema base, para que possa eu brincar em cima dele.

Talvez isso se deva ao fato de que a música está instável ainda, provavelmente por alguma excepcional lentidão da internet. 

Muito desagradável quando a música começa a fragmentar pois isso fragmenta todo o raciocínio, o qual precisa da música em seu compasso habitual.

Dançar. Compor. Tocar. Esculpir. Variar em cima de um tema básico, pré-existente. Por isso mesmo gosto tanto do pessoal do Be-Bop em se tratando de Jazz. 

Gente como o Charlie Parker que, assim como o Wolfang Amadeus Mozart, Paganini e Heitor Villa Lobos, eram geniais no que diz respeito à dança das notas, fosse em composições suas fosse tendo como base um trabalho já existente.

O Charlie Parker, inclusive, ficou mais conhecido na história de sua época e não história do Jazz, simplesmente pelo apelido de "Bird", evidente alusão ao voo dos pássaros, que ele realizava sobre as notas em seu sax abençoado, tudo sempre regado a boa bebida e boa heroína.

Salieri que o diga, ciumento de merda, que, assim como Robert Ford, que entrou para os "anais" da história como O COVARDE que matou JESSE JAMES pelas costas, soube matar MOZART aos poucos, apenas aguardando que ele concluísse o "Réquiem".

Já conheci bastante gente parecida com o Salieri. Ao vivo. Vampiros medíocres e invejosos. 

Hoje em dia sempre carrego uma maleta com minha estaca de madeira e meu martelo, além de alho, água benta e os meus punhos e punhais. E Jorge.


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"Hera dizia que o homem é quem tem mais prazer, Zeus dizia que é a mulher. Tirésias decidiu a questão: "se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma." Hera, furiosa por sua derrota, cegou Tirésias por vingança. Mas Zeus, compadecido e em recompensa por Tirésias ter dado a ele a vitória, deu-lhe o dom da mántis, a previsão."


Contudo, apesar desse falatório todo, eu ia apenas escrever sobre o fato de que, muitas vezes, a verdade reside em lugares e ou pessoas improváveis, ainda que não costume residir por muito tempo depois que começam a surgir os atos falhos e limitações de caráter e moral.

Pois nas três últimas noites, meio sem querer, meio por querer, os melhores mais prodigiosos sinceros e verdadeiros diálogos que consegui manter com humanos, pois gosto de dar uma saída inicial para afiar e testar meus instintos, foram contatos com ébrios em alto grau, e, também coincidentemente, em idade provecta.

Um deles deve ter aproximadamente 65 anos e sempre está vestido como gaudério, apelido este que dirige a todos. Fala alto, tom marcante, forte, que toma conta do ambiente em um segundo.

Engraçado é que parece um frango de tão magro. Mas é forte, ligado, esperto, inteligente, sabe respeitar as pessoas, e sempre tem uma estória pra contar na ponta da língua.

Figuraça.

Sobre o outro idoso não interessaria falar agora, pois ainda não tenho elementos o suficiente, mas o certo é que tinha uma ótima memória, tinha justiça, sabedoria e argumento.

Engraçado mesmo é que devo ser especialista em dialetos de bêbados e nem sabia, pois com o tempo estou me aperfeiçoando em entender a fala de bêbados que estão em adiantado estado de putrefação.

Assim como entendo a língua dos cachorros. E dos Carcajus. E das maldades e malfeitores. 

A nobreza tem sido o seu pior algoz, o seu mais dolorido açoite, pois este tem os seus efeitos protraídos no tempo, como a boa e velha dor do inferno, aquela que nunca cessa de doer.

Evidentemente não estou pregando a teoria de que a verdade residiria em bêbados e viciados de qualquer ordem. 

Sei bem que se trata apenas de uma coincidência interessante, a qual serve para ser o mote de um bom relato.

Até mesmo porque se estivesse a defender que a verdade residiria necessariamente em pessoas dopadas, incorreria em contradição, já que inicialmente afirmei que a verdade pode estar onde menos se espera, o que, evidentemente, não inclui apenas pessoas em estado de embriaguez alcoólica ou alguma outra. 

Ou todas ao mesmo tempo agora.

Já presenciei várias "barbies" dizendo a verdade, e vários "comunistas" dizendo a mentira e a mediocridade. 

O nome não designa o ser, mas sim a sua essência.

As vezes os mais bêbados que encontramos nos cantos escuros e mofados da vida, acabam recordando um famoso personagem da mitologia grega - o Profeta Cego Tirésias. 

Ficou famoso, entre outras coisas, por ter passado sete anos transformado em uma mulher.

Via mais do que enxergava e ainda era bastante conhecido por suas acertadas previsões.

Tiresias nos lembra, também, que, por mais sadia que seja a visão, existem vários olhos que mesmo assim não enxergam, como aqueles que sabem ler mas não leem. 

Por hoje, era isso. Contudo, não concluiremos sem antes aprendermos um pouco mais sobre o interessante, sábio e instigante Tiresias:

"Na mitologia grega, Tirésias (em grego, Τειρεσίας) foi um famoso profeta cego de Tebas – famoso por ter passado sete anos transformado em uma mulher. Era filho do pastor Everes e da ninfa Chariclo.
Certa vez ao ir orar no monte Citorão, Tirésias encontrou um casal de cobras venenosas copulando, e ambas voltaram-se contra ele. Ele matou a fêmea, e imediatamente tornou-se uma mulher.
Anos depois, indo orar no mesmo monte Citorão, encontrou outro casal de cobras venenosas copulando. Matou o macho e tornou-se novamente um homem.
Por Tirésias ter se tornado tão ciente a respeito de ambos os sexos, ele foi chamado para decidir a questão levantada por ocasião de uma discussão entre Zeus e Hera sobre se é o homem ou a mulher quem tem mais prazer na relação sexual. Mas ele sabia que a sua decisão iraria sobre ele o deus derrotado.
Hera dizia que o homem é quem tem mais prazer, Zeus dizia que é a mulher. Tirésias decidiu a questão: "se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma." Hera, furiosa por sua derrota, cegou Tirésias por vingança. Mas Zeus, compadecido e em recompensa por Tirésias ter dado a ele a vitória, deu-lhe o dom da mántis, aprevisão.
Uma versão alternativa do mito de Tirésias conta que este ficou cego ao ter visto Atena se banhando nua em uma fonte.
Tirésias se faz presente no livro Édipo Rei do antigo autor grego, o célebre Sófocles. Neste livro ele interage e demonstra: "Como é terrível saber, quando o saber de nada serve a quem possui." No qual este faz uma sábia e sutil (aos olhos de quem não consegue ver mesmo sadio da visão) revelação à Édipo, no qual no desenrolar da história, saberá o verdadeiro significado nas entrelinhas de suas sábias palavras.
Tirésias também aparece no livro Odisséia, de Homero (Canto X e XI). Ulisses não consegue descobrir o caminho para voltar para casa e vai procurar Tirésias no Hades."











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