terça-feira, 22 de dezembro de 2015

T. S. ELIOT



"QUARTA-FEIRA DE CINZAS 
                   
                                 I
Porque não mais espero retornarPorque não esperoPorque não espero retornarA este invejando-lhe o dom e àquele o seu projetoNão mais me empenho no .empenho de tais coisas(Por que abriria a velha águia suas asas?)Por que lamentaria eu, afinal,O esvaído poder do reino trivial?
Porque não mais espero conhecerA vacilante glória da hora positivaPorque não penso maisPorque sei que nada sabereiDo único poder fugaz e verdadeiroPorque não posso beberLá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,Pois lá nada retorna à sua forma
Porque sei que o tempo é sempre o tempoE que o espaço é sempre o espaço apenasE que o real somente o é dentro de um tempoE apenas para o espaço que o contémAlegro-me de serem as coisas o que sãoE renuncio à face abençoadaE renuncio à voz
Porque esperar não posso maisE assim me alegro, por ter de alguma coisa edificarDe que me possa depois rejubilar
E rogo a Deus que de nós se compadeçaE rogo a Deus porque esquecer desejoEstas coisas que comigo por demais discutoPor demais explicoPorque não mais espero retornarQue estas palavras afinal respondamPor tudo o que foi feito e que refeito não seráE que a sentença por demais não pese sobre nós
Porque estas asas de voar já se esqueceramE no ar apenas são andrajos que se arqueiamNo ar agora cabalmente exíguo e secoMais exíguo e mais seco que o desejoEnsinai-nos o desvelo e o menosprezoEnsinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morteRogai por nós agora e na hora de nossa morte.

                                 II 


                               (...)"

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