domingo, 13 de dezembro de 2015

"HOMENS OCOS, HOMENS EMPALHADOS..." E PEREGRINOS ESCRITOS - FORMAS E VAZIOS







"Os Homens Ocos

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(tradução: Ivan Junqueira)

T.S.Eliot"




Errante...a aranha...
Ou eu é que sou...
Errante...não aranha...
Quando acabo...desesperado... por arranhar 
A parede da errante aranha
Nem uma teia sou capaz de produzir...apenas destruir
apenas arranho...errando...
ao mesmo tempo em que admiro a lógica e a firmeza 
daquela espécie de "chip" orgânico de oito legs...
e eu....apenas inexperto.....sequer logro imitá-la.....
pois sou apenas racional demais...
now...you're lost...disse ela.......
por trás de seus mil olhos......
o mosaico........
como a forma de suas teias
onde o vazio vira forma
catedrais
vitrais
Chartres...
reminiscência...



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Vidas curtas porém não bestas. As das aranhas, não a minha, ou a nossa, bestas que somos. Naturalmente bestas.

Entendo melhor hoje em dia porque o Michael Jackson, o Elvis e o Morrison passavam os dias sedados. 

Disse que entendo melhor, apenas, não que cultive tais práticas.

Aliás, o filme Tropa de Elite olvidou de elencar, entre os três tipos de seres humanos, um quarto, ou seja, aqueles que se anestesiam. 

Segundo a Película de que se trata, existem os que lutam, os que são inertes e os que se entregam ao inimigo.

Esqueceram de mencionar os anestesiados, como aqueles que consomem heroína, crack e LSD de maneira regular.

Para estes, nada mais faz sentido. Não há mais lógica. Não há nada (não que isso seja ruim...necessariamente...)



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O vazio é a forma. A forma está contida no vazio. Encontrar, no nada, a forma. 

Ou como disse Eliot - "Fôrma sem forma, sombra sem cor...Força paralisada, gesto sem vigor;"

Ou como disse a aranha: "vejo, ali, naquele canto vazio, a minha teia e moradia...pelo resto de minha vida...".

O inevitável ronco da ignorância soa alto já a estas horas...aquelas horas que parecem noite ainda....quando já clareou mas ainda não chegaram os bárbaros...quando só se ouvem as pombas rolas que acabam tomando o lugar das corujas...os timbres ao menos combinam...

Em sentido metafórico, e lançando mão das tendências da natureza, temos homens mijando na frente de suas propriedades, a fim de definir territorialidade.....afirmação que não se limita ao âmbito de suas parcas, transitórias e pulguentas terrinhas....todas cercadinhas........senão que pretendem sempre ir além dos próprios muros.....na medida do possível.....

ou existem os mansos.........aqueles que provavelmente herdarão o reino dos céus..........depois eu é que me drogo.......

Rolas....as pombas...uuuu......uuuuuu......e os mansos....uniformizados e com medo.....o som das rolinhas.....um som oco......claustrofóbico.....parecido com o som que embala a terrível e abominável trilha sonora da atração infantil denominada teletubies.........ou algo assim......algo que não merece que eu consulte o google a fim de acertar a grafia.....algo que se deve errar a grafia propositalmente.....

Isso quando não está chovendo e ventando...a elas.....rolas pombas....não agrada.....nem inspira.....

Rolas......tristes figuras que acabaram se tornando, ao conviver com o humano..... uma corruptela do que eram em seu estado natural.......como sói ocorrer.



Mas...retornando à forma e ao vazio...devo admitir que tais pensamentos sempre acabam sendo inspiradores, já havendo inaugurado vários escritos assim. 

E, como se observa, o vazio vai tomando forma. Ou então será o vazio....será algo pelo menos....ou seja....mesmo o vazio ......é.....é algo........nada.....

Sim, já comecei textos assim, explorando ideias de forma e vazio. 

E continuarei começando. Talvez seja necessário. Talvez eu deva lembrar disso para que os dedos comecem, pelo menos, a agir.

Talvez isso funcione como um ignitor. 

É a nata, que paira sob o café com leite. Conectados e sutilmente separados. Alguns gostam da nata. Outros não se importam, e outros ainda, sentem repulsa.

Mas ela continua lá. Formando-se ou tentando se formar. O que realmente importa, vem depois da nata. Depois da lama.

Quadros do Pollock já foram carinhosamente definidos como "lama demais".

Existe uma agitação vaga sempre, mas hoje em dia tenho preferido traduzir em palavras, até mesmo para alcançar algum entendimento...acho...

A forma geométrica, a forma escrita que expõe pensamentos, desenhos, pinturas, enfim, o que vá preencher, de modo virtuoso, o espaço em branco.

A forma e o vazio. Fôrma e conteúdo.

Preencher por preencher, pois, é apenas rabisco, lama, sequer chega aos pés de um rascunho ou esboço (se pensarmos em Machado de Assis ou Iberê Camargo).

Não quero que os meus dias sejam cheios de nadas automáticos, reflexões previsíveis e rasas, fatos recorrentes que apenas se amoldam à rotina de sempre, ao cotidiano doméstico e correspondendo ao que de mim esperam.

Assim fizeram os Incas em sua "Cidade Perdida", a 2.400 metros de altitude - Machu Picchu. 

Transformaram vazio acre, rústico, em belas e eternas formas, confirmando a antiga expressão latina: "ars longa, vita brevis".

Assim tenta fazer o escritor quando senta em frente ao seu piano, ou o pianista, quando senta em frente à sua máquina de escrever.

Ou a Aranha que permito residir em meu habitáculo, e que ilustra o início deste peregrino escrito (a foto não ficou boa, pois, tímida em face da luz, entocou-se a pequena amiga).

Está ali, sempre ali. Armou a sua teia e ficou por ali, à espreita, cuidando de sua inexplicável e improvável vida, cuja única utilidade seja mesmo participar de uma inteligente cadeia alimentar. 

A ideia tem que cair na teia.

Exercendo, modo mecânico e não consciente, as suas tendências geneticamente moldadas ao longo dos séculos. 

São como um chip, que cada criatura carrega em algum lugar de seu corpo, normalmente na cabeça, contudo, em certas criaturas, é difícil divisar o que seja "cabeça". Pode ser o cú.

Ela não fica triste, irritada, alegre, etc, ela apenas faz  que tem que fazer em sua breve existência, sem reclamar.

Diferentemente de nós humanos, que, dotados de tele-encéfalo altamente desenvolvido, apenas fazemos complicar as coisas, quando não as estamos resolvendo, o que é mais raro, mas também está em nossa vocação genética, assim como acontece no caso da nossa pequena amiga aranha.

Então, vou tentar não complicar, apenas escrever, e que a verdade e o bom senso sejam o meu guia.

Sem jamais esquecer, contudo, que nós humanos também possuímos nossos chips, e ainda, que possuímos a rara oportunidade de tentarmos modificar tendências egoístas e prejudiciais.

Fico indagando, apenas, se tais tendências inatas suposta e aparentemente negativas, deveriam ser racionalmente modificadas, tendo em vista que a força ou a lógica que os produziu, aparentemente, é mais sábia do que eu.




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A cidade clama, sempre, e em voz alta. 

E lança seus odores ao ar, os quais acostumamo-nos a sentir em meio aos persistentes e ainda presentes odores que vêm da natureza, e em meio ao cheiro do esgoto, que sempre nos parece provindo de outros que não nós.

Mas não há nada lá fora. Apenas células sonoras independentes. E sofrimento. E falsidade, pois não pode imperar a verdade onde impera o instinto mediato de sobrevivência.

É a fauna noturna. É a fauna diurna.

Apenas os mesmos sons de sempre. Vazios sem forma, pois raramente emanam virtudes. Derivam apenas do fato de sermos gregários e não vivermos em silêncio.

Mas não está acontecendo nada mais além do conjunto de sons produzidos pelo grande número de seres humanos habitando determinada região geográfica. E cachorros. Sempre eles. Antes fossem silenciosos como são os gatos.

É apenas mais uma moto ruidosa. Um carro acelerante. Vozes esparsas, que não estão necessariamente frequentando o mesmo ambiente. 

São células que não se comunicam, como a "al quaeda". Estão lá apenas, e produzem os sons que produz a existência. Nada mais, nada menos. as vezes mais, as vezes menos. 

Então, não é lá que estão as respostas. Lá está a objetividade da convivência em grupo, recheada de cinismos, e as dúvidas de todos, mesmo que pareçam ter certezas. 

Mas não têm, apenas perambulam e vivem, mas os seus olhos, nas mais das vezes, revelam as mesmas perplexidades de todos.

A observação do ser humano, sendo em seu habitat urbano, deve servir apenas como meio de entendimento, como elementos para que procuremos as respostas às nossas perguntas sobre o que há fora e mesmo no interior de cada um de nós. 

Aquele que procurar o verdadeiro entendimento nestas interações externas, estará fadado ao insucesso, e continuará ouvindo os ruídos alienígenas em sua mente, como forma de solução.

Continuará achando que a solução de seus problemas reside em outras pessoas, em não em si mesmo.

"Qualquer coisa que faça muito barulho é satisfatória para a multidão."(Charles Dickens)
"O tambor faz muito barulho mas é vazio por dentro." Apparicio Torelly (Barão de Itararé)
"Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora." Johann Goethe



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O verão já se avizinha, mas nesta madrugada ouço músicas de inverno. Pelo menos para mim, são de inverno. 

Não o inverno interior. 

É que acabo relacionando as primeiras épocas em que ouvi músicas que gostei, com aquela mesma época e suas nuances, como temperaturas, estados de espírito, espíritos de Eras, cheiros, etc.

""Uma menina me ensinou...quase tudo o que eu sei...""

"Tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você"

Encruzilhadas e Villa Lobos, e Massive Attack...

Então são músicas de inverno, e sempre o serão. E sempre serão geniais.







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