O palhaço é um bicho estranho. Nunca se entrega, mas parece triste às vezes. Ou alegre. Debocha da plateia e ainda é aplaudido e remunerado por isso (os bispos evangélicos fazem isso também – ao menos os palhaços são mais verdadeiros e dignos).
A palavra “palhaço” deriva do italiano, “paglia”, que significa palha. Reza a lenda que eles costumavam dormir em colchões recheados de palha. Eles teriam começado a usar o revestimento destes colchões para confeccionar as suas vestimentas típicas. Eles ainda preenchiam as extremidades e interior com a palha dos colchões, até mesmo para não se lesionarem em suas quedas.
A etimologia da palavra inglesa “clown” (palhaço em inglês), por outro lado, teria relação com expressões que designavam os “camponeses”, algo conectado ao sentido pejorativo.
Pretendo analisar a instigante existência destes misteriosos seres coloridos sem lidar com clichês e ideias pré-concebidas. Senão nem começaria. Todos dizem sempre as mesmas coisas sobre este tema.
Acho que as pessoas não têm medo de palhaços por serem os “clowns” assustadores, e sim porque dizem a verdade. Melhor evitar, como acontece naquelas cidades pequenas em que os medíocres moradores, para defender-se, preferem afastar imediatamente o forasteiro.
Como aquelas verdades que as crianças entoam: “mamãe, onde foram parar as duas pernas da vovó¿¿¿ como ela vai dançar agora¿¿¿”. Saímos correndo em certas situações quando as crianças se aproximam.
Aliás, e a propósito, “Coulrofobia” é o nome da fobia relacionada aos palhaços. Deve ter sido um disléxico descendente de americanos quem inventou esta palavra agradável à dicção. É como dizer Carlton, ou Danrlei, ou o nome de qualquer jogador da Seleção nacional da Rússia, ou Suécia, Dinamarca.
Não to aqui pra romantizar, rebuscar, embelezar a figura de palhaços. Realmente parei pra dar uma pensada sobre a razão pela qual este ser aparentemente apagado e inútil, consegue gerar tanto debate e aparecer em tantas cenas de filmes e passagens de livros de maneira quase sempre simbólica, o que não acontece com um mecânico, por exemplo. (apenas um exemplo, sem processos, por favor).
Os palhaços estão no nosso imaginário de maneira bastante palpável. O mecânico não.
Ou seja, se eu achasse os palhaços uma bosta eu simplesmente diria......... “palhaços são uma bosta tão grande que nem uma reflexão merecem”.
Não é o caso. Tenho pensado nisso ao longo do tempo. Mas não queria me ater a clichês, e criar em cima de um ou alguns. Posso vir até mesmo a confirmar estas ideias pré-concebidas – ou não - mas tenho que ver se são verdadeiras ao invés de ficar a vida toda repetindo com um tom cretino de erudição as coisas que se lê e ouve ao longo da vida.
E acho que a reflexão, neste caso, foi válida, pois parece que, ao menos para mim, os clichês não eram clichês por serem verdades, mas por inércia dialética.
Acho até mesmo natural as crianças gostarem de palhaços, uma vez que, segundo nos informam inúmeros escritos, elas possuem um componente sádico fortíssimo, além de imperativas.
Por outro lado, também acho natural a reação oposta, ou seja, o medo, pois devem se prevenir de ameaças. Prevenção que vem do medo. O medo de se machucar frente a uma situação desconhecida que parece ameaçadora.
Já o adulto, embora goste por achar eventualmente engraçado, seu medo vem de outro lugar. De sua imagem perante as outras pessoas e si mesmos. Eles têm medo que inevitáveis piadas possam se voltar contra eles, ou fazê-los se deparar com verdades que preferem esconder até mesmo de si próprios.
Palhaços não seriam irreverentes se não dissessem a verdade. Não digo que todos os irreverentes sejam palhaços, mas aos palhaços tal característica se mostra indispensável. Ou então não usariam aquelas vestimentas coloridas características, mas ternos. Ternos e não verdades estão na plateia. Roupas coloridas e verdades estão no palco.
Palhaços são palhaços porque podem. Porque tinham uma percepção para não fazer parte da loucura, e, para não ser esmagados por ela, tinham que passar despercebidos ou parecerem reverentes e desrespeitáveis.
Choram porque são sensíveis. Disse “sensíveis”, não “fracos”. O contrário de sensibilidade é frieza. O contrário de ser fraco é ser forte. Fortes eles são. Acabaram sendo. Não porque tentaram, mas porque nasceram para ser palhaços.
Não é a vida que levaram, não é o que procuraram, é a tendência. Tem gente que vive 100 anos e não aprende nada. Essa gente nasce com algo a mais que faz com que possam se dar ao luxo, inclusive, de serem palhaços.
Eles captam coisas que outros não captam, pois se os outros captassem de maneira tão contundente como os palhaços o fazem, não iriam ao circo, pois seriam diferentes. O palhaço não é igual a eles. É melhor e os observa de fora. Na verdade o palhaço é que ri da plateia (aliás, sempre pensei se eles não colocavam mijo......ou ácido naquelas malditas flores que soltavam líquidos).
A lágrima não está lá pintada pelo que está dentro deles, mas pelo que eles são obrigados a botar para fora. Eles são espelhos de nossas mazelas ocultas. Assim sendo, a lágrima não é dele, é nossa. Ele apenas dá gargalhada em silêncio por trás da pintura. É por estas e outras razões que ela existe.
São, pois, ao contrário do que lemos a vida toda, felizes pois não estão no lugar dos atingidos pela verdade, conseguem transitar por um mundo mais real, e, ao mesmo tempo, ficar distantes e brincar com mundos alheios. A lágrima é pelos espectadores, e os espectadores, por sua vez, tentam transferir a sua amargura para o palhaço. Para o ser humano médio o erro é sempre exterior a si.
Sequer dar umas porradas nos palhaços podemos, pois a plateia está ali, tem o politicamente correto e tal....levar na esportiva. Como quando gostaríamos de costurar a boca de uma criança, com linha de aço e agulha quente, quando ela pergunta em público sobre um tema que todos os adultos evitam propositalmente, como se estivesse falando de doces, ou trapinhos.
Ou seja, ou tu matas o palhaço, ou tu finges alegria e sorrisos.....batendo palma.....ao lado de outros adultos e crianças..........rangendo os dentes. Se matares o palhaço matas a ti mesmo, pois és um todo.....um todo meio sadomasoca.....precisas do palhaço....ainda que ele te açoite com a verdade.
Aquelas roupas idiotas, na verdade, fazem parte dos inteligentes artifícios empregados pelos palhaços para poder ser vistos e ouvidos. Do contrário, iriam para a fogueira, ou seriam destruídos rapidamente quando fossem tentar seguir os caminhos oficiais, como ocorre no caso da política, destinada aos medíocres, que se sujeitam a jogos sujos.
Ora, se os palhaços usassem ternos seriam ouvidos¿ hahaha...................os palhaços lidam com características das mais básicas dos seres humanos, ou seja, vaidade, tendências imperialistas.................teatralização das relações....então os palhaços optaram por jogar o jogo deles, ao invés de ficarem se destruindo entre o mar e o rochedo.
Descobriram logo deveriam parecer aparentemente ridículos, absurdos, feios e imbecis, caso contrário não poderiam levar a sua mensagem. Falei aquelas características acima, pois os palhaços devem ter concluído que as pessoas poderiam até mesmo ser burras e ignorantes.......mas eram vaidosas e gostavam de mandar.........então criaram uma figura submissa e patética..................assim poderiam entrar na festa.....................
Apenas uma curiosidade: todos os palhaços têm um cheiro de suor vencido na roupa. Estranho isso.
Além disso, não esqueçamos que o ser humano tende a repelir o que não entende, tornando-se até mesmo hostil em situações assim. Mecanismos naturais de defesa, ainda que os loucos e insanos tendam a ser mais respeitados desde os tempos mais primitivos.
Quando uma criança está acompanhada de seus pais no circo e um palhaço se aproxima, a criança costuma sentir sensações como fascínio, alegria, medo. Já os pais se ajeitam e ficam prevenidos (sorrisinho pra agradar o monstro), receando que sobre para eles, pois o palhaço pode resolver dirigir contra si uma frase de criança, ou seja, esmiuçar uma verdade oculta ou convenientemente não destacada, mesmo que a vista de todos. Hipocrisias coletivas. O bom e velho palco do dia a dia.
Não criança como a Chiquinha, do Chaves, que por coincidência está naquele programa do Danilo Gentili no começo da madrugada (mas estou ouvindo na Band News).
A Chiquinha é sado-masoquista e toma remédios de tarja preta para controlar a sua hiperatividade. É apenas um ser humano adulto vestido de criança, como um lobo vestido de ovelha. Por isso aqueles personagens do Chaves incentivam determinados comportamentos “extra-criâncicos”. Ainda que imaginemos gostar, na verdade aquilo é uma bosta. Nós somos uma bosta. Ou então não veríamos o Chaves heheh.
Agora ela é um adulto velho vestido de criança. Piorou. Vai ver a Chiquinha achou que se passasse a vida vestida de criança poderia alcançar a verdade que tinha quando era criança. A verdade que fazia com que gostasse de palhaços. Ou que pelo menos o seu medo tivesse a ver apenas com a bizarra figura que se dirigia aos gritos até ela.
Fiquei pensando sobre a velha ideia de que seriam tristes por dentro. Acho que não são. São apenas sensíveis, mas imagino que sua maior felicidade é estar do lado certo, pois quem têm que chorar, normalmente, são os que os assistem. E eles o fazem. Escondido. Como escondidas são todas aquelas razões pelas quais não se lhes agrada a presença do palhaço.
Para uma criança é apenas algo familiar, e, quando muito, assustador por parecer um humano bizarro. Por instinto fomos condicionados a nos defender de situações duvidosas. Na dúvida, corra. E eles sabem disso. Às vezes nem queriam, mas isso está dentro deles. (acho)
Para os adultos é o humano bizarro de si mesmos.

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