domingo, 31 de maio de 2015

A VAIDADE, O VAZIO E OS TIGRES DE PAPEL




"O vaidoso alegra-se com cada boa opinião que ouve sobre si mesmo (independentemente da sua utilidade ou, da mesma forma, de ser verdadeira ou falsa), tal como sofre com cada má opinião; submete-se a ambas, sente-se sujeito a elas devido àquele velho instinto de submissão que nele irrompe. é o 'escravo' que subsiste no sangue do vaidoso, um resto da astúcia do escravo".


(F. Nietzsche, Para Além Bem e Mal, §261. Tradução de Carlos Morujão, com algumas alterações, para a Relógio D'Água, 1999)



Aliás, deve ser por isso que a palavra "vaidade", do latim vanĭtas, é a qualidade do que é vão (vazio, oco ou com falta de realidade, substância ou firmeza).


Vaidades que pretendam agradar aos outros não são vaidades, são escravidões, não-liberdades, formas de submissão. Não se deve pensar em agradar, apenas respeitar. A vaidade deveria relacionar-se apenas com o respeito do indivíduo a si mesmo.


A vaidade exercitada de maneira submissa, objetivando a satisfação alheia indica justamente o contrário, pois revela baixa-estima, ausência de valores assentados, ausência de convicções, comportamentos volúveis, necessidade de aceitação, como no caso do filme "Zelig", do Woody Allen, onde o personagem sofre mutações a fim de adaptar-se ao meio em que está. 


São pessoas oprimidas tensas que passam despercebido, buscando algo que não existe, o que nos reporta, por sua vez, ao conceito hebraico de vaidade, proveniente de duas expressões - habel e shav, sendo que, tal qual se pode verificar no conceito derivado do latim, também significam  "vazio" e "oco".


Por isso mesmo o emprego da palavra "vaidade" no Antigo Testamento tinha relação com o abandono da ideia de que existiria apenas um Deus (monoteísmo), gerando a procura de ídolos que, ao fim e ao cabo, não poderiam atender aos anseios de Israel, já que simplesmente não existiam. 


Esta busca e adoração de novos ídolos, pois, acabou virando sinônimo de vaidade, a partir da consideração de que o povo de Israel estava a procurar ajuda no vazio. 


Isso ajuda a explicar, talvez, a razão pela qual a vaidade, em um primeiro momento, ou a partir de uma análise açodada, pareça estar relacionada com idéias de felicidade pessoal, liberdade, força, visibilidade e aceitação social.


Em um segundo momento o indivíduo se depara, nas mais das vezes, com o fato de que é apenas um "tigre de papel", sem substâncias, já que, em verdade, suas vaidades acabam por ser simples reflexos de suas fraquezas, ou subterfúgio para ocultá-las. 


São fraquezas essenciais, escravidões, conceitos negativos sobre si mesmo, provavelmente gerados na primeira infância.


Vaidades quebram pontes, afastam indivíduos ou grupos, pois geram competições, invejas, rituais de ostentação e ostensividade. Fantasmas travestidos de palhaços. Os bobos do salão. Macacas de auditório. Papagaios de pirata.


Vaidades criam conexões caracterizadas pela descartabilidade, como por exemplo adquirir roupas rotineiramente, pretendendo preencher vazios. Efeitos apenas paliativos. Benefícios transitórios. Euforia passageira.


Ou mesmo adquirir pessoas para usar e descartar, algo tão em voga não só no mundo de "Caras". Apenas cativar sem se responsabilizar. "Começo a compreender - disse o pequeno príncipe. - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou..."




"Vaidade das vaidades, tudo é vaidade", já dizia Eclesiastes.








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