sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

SUJO - GULLAR........GENIAL




Poema sujo

(trecho inicial)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como 
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma 
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela 
mais que bela 
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera 
nem Nara nem Gabriela 
nem Tereza nem Maria 
Seu nome seu nome era... 
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia 
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas 
constelações de alfabeto 
noites escritas a giz 
pastilhas de aniversário 
domingos de futebol 
enterros corsos comícios 
roleta bilhar baralho 
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa 
e de tempo: mas está comigo está 
perdido comigo 
teu nome 
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos 
se perdem pela vida caem 
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás 
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama, 
ou dentro de um ônibus 
ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris 
perfeitamente fora
do rigor cronológico 
sonhando 
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar, 
voais comigo 
sobre continentes e mares

E também rastejais comigo 
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país 
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror 
vos esgueirais comigo, mesas velhas, 
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado, 
dobrais comigo as esquinas do susto 
e esperais esperais
que o dia venha

E depois de tanto 
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo: 
te chamo aurora 
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema 
nas aparições do sonho 

- E esta mulher a tossir dentro de casa! 
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)
E todos buscavam

num sorriso num gesto 
nas conversas da esquina 
no coito em pé na calçada escura do Quartel 
no adultério 
no roubo 
a decifração do enigma

- Que faço entre coisas? 
- De que me defendo?

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o 
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento oblackout as 
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de 
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste. 
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava 
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste. 
A cada nova manhã 
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda. 
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo. 
Papagaios de papel.
Retreta na praça. 
Luto. 
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos

Do corpo. Mas que é o corpo? 
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio 
que guarda as vísceras todas
funcionando 
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite 
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida 
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar 
um caco de vidro 
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos 
enquanto discuto caminho 
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro 
dos céus da cidade estrangeira 
com a ajuda dos plátanos 
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
aberto

Meu corpo 
que deitado na cama vejo 
como um objeto no espaço 
que mede 1,70m 
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que 
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo 
meu corpo feito de água 
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio 
e me sentir misturado 
a toda essa massa de hidrogênio e hélio 
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi 
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração) 
tic tac tic tac 
enquanto vou entre automóveis e ônibus 
entre vitrinas de roupas 
nas livrarias 
nos bares 
tic tac tic tac 
pulsando há 45 anos 
esse coração oculto 
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva 
debaixo da capa, do paletó, da camisa 
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária 
meu coração de menino

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