"QUEBRA - CABEÇA
Havia uma velhinha com fixação por montar jogos de quebra-cabeça.Ficavam espalhados pela casa como retratos ou quadros.Uma noite ela abriu um novo jogo de tamanho 297x420. Parecia mais complexo que os outros, com paisagem sombria e escura e peças de formatos não convencionais. Todas as noites ela montava uma parte antes de dormir.Nas noites sequentes, a velhinha passou a dormir cada vez menos, obcecada em terminar seu quebra-cabeça. Seus dedos estremeciam devido a idade e ao nervosismo, impaciente derrubando peças e encaixando outras obviamente incompatíveis. O café congelava intocado ao seu lado. Não se preocupava com alimentação ou agasalho, apesar do suor que lhe escorria pela testa, despenteada vestida em sua camisola fina de idade quase equivalente a dela própria. Mordia o lábio, que chegou a inchar. Os olhos vermelhos lacrimejavam pelas horas avançadas sem descanso.Naquela noite ela estava decidida em terminar o seu jogo.Com compulsiva insistência e experiência, conseguiu formar a paisagem do quebra-cabeça, constatando com assombro que reconstruia perfeitamente sua própria cozinha, com seus armários medíocres, a parede mofada, a geladeira velha azul e... ela própria, sentada à mesa, montando seu jogo de quebra cabeça.Faltavam apenas as últimas 3 peças.Com tremor multiplicado e batimentos à beira do infarte, encaixou com seus finos e enrugados dedos as 3 últimas peças.Estas últimas peças se localizavam na janela da cozinha e revelaram um maníaco rosto que espreitava.O último som que a velhinha ouviu na vida foi do vidro da janela estilhaçando."
Filme "A Sociedade dos Poetas Mortos".
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O primeiro fator sempre acabará sendo denominado "disposição para."
A segunda coisa a fazer, pois, e no caso dele, era sentar em algum lugar onde houvesse, à sua frente, alguma espécie de papel em branco, fosse uma máquina de escrever, fosse um lápis e um papel, ou até mesmo o branco luminoso de um bom lap top. Uma parede e um carvão.
Sentar é importante, pois, quem pensa, pensa melhor parado (rauzito), e quem escreve, escreve melhor sentado. Quem dorme, dorme melhor deitado. Quem trepa, trepa melhor...bom, esse exemplo não seria apropriado.
E já não estava mais em branco o papel elétrico. Como a partitura, letras já estavam dançando livremente, ganhando vida nos contextos em que inseridas.
E de preferência à noite, pois sobre o ser humano já sabia demais. Hoje em dia bastam poucas horas de observação, para confirmar impressões, descobrir sempre algo a mais e perceber as novas tendências de massa (barba, músicas, modos de falar, roupas, filosofias, etc.).
Debruçado sobre si mesmo, e diante de tantos ícones, tinha a ousadia de achar que poderia escrever algo significativo, mesmo que fosse pelo fato de que antes nunca havia sido escrito.
Nestas horas deveríamos nos fixar em nosso próprio conteúdo, pois o externo já foi colhido e processado. Ao menos é o que se espera.
Não procurava personagens, para longas estórias. Não possuía um tal dom, ou uma tal infelicidade. Procurava algo mais imediato, algo mais sintético, algo mais direto.
Talvez, mesmo, porque não soubesse ou não pudesse procurar algo diferente. Era o material de que ele dispunha.
"O gato bebe leite. O rato come queijo...".
Como falar sobre o seu próprio cotidiano, se era tão vazio, feito apenas de ideias e impressões.
Como falar sobre o cotidiano alheio, se a ele todos pareciam iguais, por mais dramáticos que perecessem. Seria como escrever novela, algo absurdo, pelo menos no seu entendimento.
Diriam que tudo poderia ser tratado em meio às dúvidas, dramas e perplexidades humanas externadas pelas personagens de um romance.
Diria ele que tudo isso pode ser tratado de maneira pinçada, sem a necessidade de que, para tanto, sejam empregadas personagens. Pois dramas psicológicos e dúvidas humanas povoam crônicas, ensaios e romances.
A filosofia é permeada de diálogos, peripatéticos, e verbetes. Não poderia ele, então, tentar apenas filosofar? Ao velho e bom modo...
Prefiro absorver o significado e explicar o smeagol, do que propriamente criá-lo.
Achava inusitado, contudo, o fato de que tinha extrema facilidade para inventar diálogos e estórias envolvendo os seus cães e animais no entorno. Talvez fosse apenas uma vocação natural para as estorinhas infantis, além de alguma filosofia.
Afinal, ao longo da história do homem, diversas estorinhas direcionadas para crianças, cultivavam fábulas e lições ao longo de seus textos, e várias fábulas acabaram virando ditos populares.
Romances tratam sobre fatos, e tais fenômenos já foram anteriormente analisados à luz da filosofia e da teoria científica escrita.
Fatos são específicos, casuísticos. Filosofia e teoria científica vêm antes deles, são amplos, abrangentes, oferecem conclusões a partir justamente da observação daqueles.
E tudo isso ia rodando em sua cabeça, talvez procurando desculpas para suas incompetências. Talvez procurando prêmios para os seus irreconhecidos êxitos.
Enquanto isso ouvia The End, do Doors (e da trilha do Apocalipse Now), como se isso fosse ajudar a tornar as ideias mais claras, ainda mais quando ele ouve claramente o grito da borboleta e o Morrison dizer:
"The killer awoke before dawn,He put his boots onHe took a face from the ancient galleryAnd he walked on down the hallHe went into the room where his sister lived,And...then hePaid a visit to his brother, and then heHe walked on down the hall, andAnd he came to a door...and he looked inside"Father ?", "yes son", "I want to kill you""Mother...I want to...fuck you"
Melhor explicar os fatos, pois, do que encher o mundo de dúvidas por meio de personagens que apenas fazem retratar os dramas já existentes, dificilmente ocorrendo alguma inovação.
Enchendo o mundo de dúvidas, ou apenas fornecendo aquelas soluções que já foram expostas anteriormente pela filosofia, psiquiatria, etc.
Não quero explicar as coisas sempre por meio de metáforas, as vezes é melhor ser mais direto.
Não quero viver citando, ainda que conhecimento construa conhecimento.
"And all the children are insaneAll the children are insaneWaiting for the summer rain..."
Comportamentos conseguem alterar rotinas alheias, assim como talvez possam os escritos.
Conviver com humanos, normalmente, é um grande jogo de xadrez. Ou poker. Um grande tabuleiro, e suas peças.
E lá estava ele, só, sentado, observando sua vela amarela terminar o seu ciclo. E nada de produtivo havia produzido, apenas um pouco mais de lama, dessas que se amassa e joga no lixo, já transbordando de lama.
Foi, uma vez mais, do zero ao nada. Não adiantava, sempre nestas horas, desejar que mais noite houvesse. Não há. Há o que há.
Fragmentos de nada, pouco conectantes, pouco conectados. Ideias que se comportam como os seres que, eventualmente, correm por cima de nossas cabeças, nos forros de madeira antigos de nossas casas.
Não se sabe exatamente o que são, ainda que se imagine. Não se sabe exatamente o que farão, para onde irão.
Não se sabe muito bem o que fazem ali, ainda que se imagine. Não se sabe muito bem a sua finalidade. Não se os consegue ver ou apalpar. E nem sempre quereríamos.
São pedaço concreto, pedaço imaginação. São ao mesmo tempo entendíveis, ao mesmo tempo não entendíveis, e ao mesmo tempo desprezíveis.
Fragmentos que se não pode apanhar. Nem apanhar. Ou pouco se pode, e o que se pode acaba se traduzindo em nada, ou muito pouco.
Talvez sejam apenas filosofias e dialéticas, que nem deveríamos expor. Talvez nada. Talvez tudo. Talvez falte visão. Talvez seja apenas o que é - algo entendível...algo oculto...quebra-cabeça.
Por vezes certos quebra-cabeças são como aquele do Filme "A Sociedade dos Poetas Mortos", em que uma senhora, sozinha, em uma noite de tempestade, tarde da noite, montava um quebra-cabeças.
Ao longo da montagem, ela começou a encontrar alguns aspectos familiares, e acabou concluindo, atônita, que se tratava de sua própria sala.
Ainda atônita e bastante tensa, ela continuou a montar o seu quebra-cabeças, e, ao depositar as duas últimas peças, constatou que alguém, com um aspecto sinistro e assustador, a observava pela janela, tendo sido esta a última cena de sua vida, após ouvir um forte ruído de vidros quebrando.
Ou seja, assim como nas estórias infantis acima mencionadas, e suas fábulas, nota-se que o que-cabeças do relato acima, e mesmo este texto fractal, que segue do zero ao nada, as vezes é melhor que permaneçam sem conexões, soltos, ainda que pudessem ser unidos e formar um todo.
Como no caso da senhora que montava o seu quebra-cabeças, pode ser trágico o resultado obtido pelo indivíduo após juntar todas as peças.
Por vezes, não convém montar o quebra-cabeças até o final. E como não montamos até o final, do zero ao nada é o caminho que habitualmente seguimos. Como este texto, o qual sequer deveria ser publicado.
Deveria ser amassado e arremessado à lixeira, arremesso este que, a uma hora dessas, provavelmente eu errasse.
Ou mesmo depositado em um arquivo de projetos que talvez pudessem seguir adiante, em um dia inspirado, em que se soubesse quais são os objetivos, e o que se descobriria não seria exatamente algo trágico.
Desses que não se deve saber sobre si mesmos. Ou sobre quem nos cerca, seja no primeiro, ou no sétimo círculo.
Mas não seria o caso, pois o texto que se me apresenta, vem a ser justamente isso. Fragmento. Peças. Esparsos pensamentos, imprecisas certezas, não saber exatamente a composição final do quadro. Sequer saber se haverá final.
Afinal, estão todas espalhadas ao nosso entorno. Não é sempre que queremos uni-las. Não é sempre que queremos chegar até o final. Como um livro chato, que paramos no meio. Ou no começo. Ou perto do fim.
No entanto, assim como o conto do quebra-cabeças, não conseguimos resistir, e sempre queremos ver como vai ser o final, por pior que se nos possa apresentar.
Continuarei, pois, a montar, pois, como já referi, hoje fui do zero ao nada. Ou simplesmente não quis colocar as últimas peças em seus lugares. Talvez outro dia.





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