domingo, 31 de janeiro de 2016

A ESTÉRIL CRÍTICA RACIONAL. O SER E O DEVER SER.







"É por isso que se mandam as crianças à escola: não tanto para que aprendam alguma coisa, mas para que se habituem a estar calmas e sentadas e a cumprir escrupulosamente o que se lhes ordena, de modo que depois não pensem mesmo que têm de pôr em prática as suas ideias."

"Não há garantias. Do ponto de vista do medo, ninguém é forte o suficiente. Do ponto de vista do amor, ninguém é necessário."
Kant.


                     ***********XXX***********


Pessoas falam e falam e falam, mas, mesmo não possuindo qualquer tipo de deficiência auditiva, o fato é que não mais as "oiço". Nem sequer as observo.

Ouvir o que? Ver o que? Mais do mesmo? Quem gosta disso são apreciadores de novelas. Nada contra eles. Nem muito menos a favor. Inocentes úteis. Despojados de interiores. Delirantes.

Isso deveria ser necessariamente algo ruim?

Quando está nublado e chovendo, existe a possibilidade de que se possa escrever mesmo após o entediante amanhecer. Se ao menos não houvesse passarinhos.

Existem coisas que devem ser produzidas de dia, admito. E outras á noite, admitamos. Então vamos ás coisas que devem ser produzidas pela noite.

E convém não revisar o que já foi escrito, diante da existência de algo que possa ser novo. Possa ser. Quem escreve, acaba por escrever as mesmas ideias de várias maneiras diferentes, é por isso que existe uma seleção. 

E assim fazemos na vida, senão casais não precisariam mais conversar depois de dois anos (!!)

Veja-se o exemplo deste lixo denominado Sertanejo Universitário, ou todas as músicas românticas em geral, como as do Roberto Carlos. Ou todas as músicas de "axé". Ou todos os filmes policiais. 

E as pessoas continuam lá, assistindo atentamente, e aguardando ansiosamente, fantasiadas de mestre Jedi em sessões de cinema à meia-noite.

Tudo já foi dito, a prosa está se tornando obsoleta e inútil. A poesia não. Quisera eu fazer poesia como fez Hilda Hilst ou Adélia Prado. Ou Baudelaire. São mágicos das letras, eu não. Apenas as distribuo a partir de uma visão que não chega a ser universal, como deveria.

Estava refletindo sobre o fato evidente de que as minhas manifestações escritas são habitualmente permeadas por ácidas críticas, destaques sórdidos, desconstrução de lógicas falaciosas, retóricas imbecis que nos acompanham cotidianamente.

Contudo, é um certo exercício de masturbação, em todos os sentidos, seja porque existe um prazer envolvido, seja porque aquilo se repete, e repete, e repete, e se repetirá, e sempre será bom, por vezes bem melhor do que o normal.

Entretanto, assim como a masturbação pura e simples, acaba não criando nem procriando, é apenas aquela repetição de aspectos que já conhecemos, não há frutos, como no caso do coito cujo objetivo seja este, ou seja, criar algo novo e melhor.

A crítica pela crítica, pois, acaba não levando a muitos lugares, e normalmente acaba sendo tão-somente uma repetição daquilo que todos já sabem que está errado.

Por isso mesmo é sempre mais conveniente exercitar a crítica simplesmente de maneira sarcástica (ridendo castigat mores), do que aquela crítica prepotente, imponente, de gravata, metida a séria e que não resolve nada, apenas esmiúça máculas por demais conhecidas e acaba mesmo se tornando um simples e patético exercício de vaidade pessoal.

A crítica, pois, não deve terminar nela mesma, deve ser apenas um meio e não um fim, sob pena de estarmos masturbando palavras estéreis, revolvendo o mesmo lodo de sempre, sem que, dali, nasçam soluções ou caminhos novos a seguir - no caso - o fruto, o novo, a criação.

A crítica pela crítica, embora seja útil no sentido de abrir os nossos olhos para o que não está correto, ao fim e ao cabo, termina nela mesma quando nada constrói, quando apenas faz desconstruir o que aí está.

Digamos, inclusive, que é uma posição muito confortável daquele que se dedica a apanhar apenas os elementos que, aparentemente não estão corretos, e colidir contra eles, olvidando o fato de que deveria, então, oferecer algum tipo de caminho alternativo.

A crítica pela crítica acaba por ser cretina e fácil, por melhor que se a escreva, sendo mesmo, por vezes, um egoísta exercício de punheta mental e vaidosa, com poucos espectadores.

E as soluções, se é que elas existem efetivamente, afora as coisas simplesmente como elas são, justas ou não?

Antes de pensar se soluções existem, devemos perguntar - para que? E se chegarmos a alguma conclusão, deparamo-nos com outra indagação - mesmo que achemos que soluções existem, devem ser postas em prática, já que as coisas são o que são? 

Solução para que?...para o fato de sermos humanos demais e fazermos simplesmente aquilo para o qual fomos vocacionados?

Não racionalizemos demais - afinal, somos apenas a merda que somos. Não pode ser diferente disso, só atenuado, para que menos emético seja o quadro. Não precisamos almoçar assistindo empalamentos.

Mas podemos almoçar assistindo tranquilamente em nossos lares as notícias sobre o Chico Mendes, a Dorothy Stang, e os índios dos Carajás. Se formos analisar, dá no mesmo, apenas estamos mais domesticados. E tudo sempre acaba em nada.

Ainda ontem tive a oportunidade de presenciar mais uma das habituais imagens de escroques asquerosos que povoam nossa nação - desta vez o escroto do "zedirceu", e uma vez mais envolvido em um escândalo de proporções mundiais, sorrindo para as câmeras quando conduzido, novamente, pelas autoridades policiais.

O ser e o dever ser - Ora o mundo é pródigo em exemplos de que as injustiças e as desavenças não tendem a estancar, quanto menos parar, seja em mundos civilizados ou não, ainda mais quando os civilizados normalmente conseguiram sua hegemonia esmagando os mais fracos.

Apenas o grau, dimensão e divulgação das injustiças é que tende a esmorecer, mas continuam sempre lá, e continuam sendo sempre injustiças, pois roubar um milhão de reais não é diferente de roubar uma caneta ou ocupar a vaga destinada ao deficiente físico.

Somos e nos suportamos, na medida do possível. Sabemos o que deveria ser, mas apenas somos.

Talvez sequer hajam ou devam haver soluções. 

Talvez sejam apenas explanações, teorias sociais para encher livros de letras e de idiotas nas faculdades, discutindo o sexo dos anjos, com explicações sobre o que seja o fenômeno humano.

E e as soluções não chegam a ser soluções, são apenas mecanismos para que se possa conviver da melhor maneira possível dentro do que é ruim e não vai mudar, como ficar assistindo diariamente israelenses e palestinos se consumindo, até que acabarão consumindo a todos no bojo deste odioso conflito que nunca terá fim. 

Ou terá e será o fim.

Não falo de minha vida ao dizer que as coisas são o que são e podem realmente ser ruins, nem tampouco de meu estado anímico, até porque não estou aqui para falar de mim, não sou argentino, ou o Fidel. Ou a Narcisa Tamborindeguy.

Falo que as coisas em geral apenas nao parecem justas como uma noção de dever ser informaria que fosse (ou na noção de ser, se formos pegar a definição de Kelsen, ou ainda as "condições a priori, no caso de Kant, que adiante veremos) 

Mas dever ser é apenas racionalização, não correspondendo necessariamente ao que vem a ser.

Tudo o que foi acima exposto, modo empírico eu diria, me reporta muito (com as infinitas ressalvas possíveis neste caso já que "eu sou apenas eu" e "ele é ele") às ideias contidas na conhecidíssima e "classicíssima" Crítica da Razão Puta...digo...desculpe...Pura, do genial Immanuel Kant, senão, vejamos: (WIKI) (grifos nossos)

No começo do livro Kant esclarece a diferença, fundamental para seu sistema, entre os "juízos sintéticos" e "juízos analíticos", sendo o primeiro aquele que, através da junção de informações distintas chega a uma nova informação. O segundo refere-se à dividir um mesmo objeto em seus constituintes, de modo que suas partes se tornem mais claras, mas que nada mais surja, a não ser aquilo que previamente já estava contido no próprio objeto. Com relação aos "juízos sintéticos" e "analíticos" a posteriori Kant não coloca qualquer problema. Mas afirma que os pensamentos filosóficos correntes se utilizavam de "juízos analíticos" a priori, isto é, apenas andavam em círculos sobre algum conhecimento, reproduzindo-o com palavras diferentes, chegando a conclusões que em nada diferiam daquilo que já estava contido no primeiro pensamento, sem produzir, assim, qualquer novo conhecimento a respeito das questões sobre as quais eram formuladas. Porém o que chamou a atenção de Kant foi a possibilidade de juízos a priori na matemática e na física proporcionarem conhecimento novo, diferente dos sofismas redundantes filosóficos. Assim, Kant percebeu que estas duas ciências eram capazes de elaborar "juízos sintéticos" a priori, por tratarem justamente das leis que regem o conhecimento, dispensando, assim, qualquer experiência para validar seus achados. A partir daí Kant se pergunta se é possível realizar também juízos sintéticos a priori na metafísica, que estava enfraquecida pela obscuridão dos idealistas e praticamente destruída pela perspicácia dos empiristas.
Kant principia sua reflexão crítica já na dissertação de 1770, mas, após 11 anos de silêncio bibliográfico, ele lança a Crítica da Razão Pura, contendo uma reflexão sobre a possibilidade de todo conhecimento, dando uma resposta aos empiristas, especialmente David Hume, que foi uma de suas inspirações (Kant disse "Hume me acordou dos meu profundo sono dogmático"), e aos racionalistas alemães, Leibniz e Wolff.
Kant aceita a premissa de que todo conhecimento humano começa a partir da experiência, mas destaca que os empiristas, particularmente Locke, negligenciaram o papel da atividade do entendimento para a origem do conhecimento.
Assim, Kant mostra ao longo de sua crítica quais são as condições para qualquer experiência possível, na "Estética Transcendental", analisando quais são as condições a priori para que um dado fenômeno possa ser dado na intuição, chegando às condições de "espaço", para as intuições externas, e "espaço" e "tempo" para as intuições internas.
Após a Estética, Kant prossegue para a análise da forma pela qual aquilo que é dado na experiência é organizado em relações que constituem conhecimento. Estas são as categorias do entendimento, determinadas pela razão pura e que, sendo preenchidas pela matéria proveniente da experiência podem formar um conhecimento. Ambas as análises são feitas na chamada "Analítica Transcendental".
Em seguida ele parte para a "Dialética Transcendental", parte do livro na qual ele usa esse pensamento elaborado na analítica para mostrar erros de raciocínio impregnados no modo de pensar filosófico de então.

Kant fala em razão pura, exatamente a noção que se deve ter do significado de "ser", pois quando falo em racionalizar conscientemente os fatos da vida, já estou a considerar a opinião que se possa ter sobre isso, o que é bem diferente da "razão pura", ou seja, o senso fatalista que se deve nutrir diante das coisas como elas realmente são, e não como queremos que sejam, em nossas projeções equivocadas.

Aliás, talvez seja por essa mesma razão que a sinopse acima transcrita, colhida junto à Wiki, refira, em seu último parágrafo, ou seja, a sua "Dialética Transcendental", parte do livro na qual ele usa esse pensamento elaborado na analítica para mostrar erros de raciocínio impregnados no modo de pensar filosófico de então.

E talvez seja disso que se esteja a falar hoje. Não foi o Kant que me conduziu ao escrito. O escrito foi existindo, e, em meio ao seu redundante emaranhado, lembrei das ideias propaladas pelo inigualável pensador alemão. Tangenciando, apenas, sei bem.

Note-se, também, que é bastante destacada a questão relacionada aos conhecimentos "a priori", de modo que as nossas rasas racionalizações acabam por criar mundos inexistentes, e ali nos perdemos em nossos labirintos e limbos pessoais, angústias inexistentes, certezas não existentes, com o perdão da redundância, mas é que soava bem. 

Então, o conhecimento verdadeiro só pode ser mesmo obtido a partir desta conjunção de fatores que são forjados a partir da lógica de sua criação, que não nos pertence, e a experiência que podemos obter ao percorrer este universo. Isso se formos dotados, é claro, da capacidade de perceber o que é e o que deve ser. Vejamos: (grifei)

"No prefácio à primeira edição Kant explicita o que ele quer dizer por crítica da razão pura: "Eu entendo aqui, contudo, não uma crítica dos livros e sistemas, mas sim da faculdade da razão em geral, com vistas a todos os conhecimentos que ela pode tentar atingir independentemente de toda a experiência.
Neste livro Kant tenta responder a primeira das três questões fundamentais da filosofia: "Que podemos saber? Que devemos fazer? Que nos é lícito esperar?"
Ele distingue duas formas de saber: O conhecimento empírico, que tem a ver com as percepções dos sentidos, isto é, posteriores à experiência. E o conhecimento puro, aquele que não depende dos sentidos, independente da experiência, ou seja, a priori, universal, e necessário. O conhecimento verdadeiro só é possível pela conjunção entre matéria, proveniente dos sentidos, e forma, que são as categorias do entendimento."

Aliás, sobre ser e dever ser, nunca olvidemos as lições preciosas de Hans Kelsen, em outra pura teoria (bebamos na fonte...e...acima de tudo...bebamos), coincidência ou não, pois a obra se chama Teoria Pura do Direito. 

Analisemos o elucidativo resumo, a propósito: (Wiki)


"A base da Teoria Pura do Direito é a distinção fundamental elaborada por Kelsen entre o que ele denomina "ser" e "dever ser".O âmbito do ser seria o mundo natural, explicado pelas ciências naturais com base nas premissas de verdadeiro/falso. Este domínio obedeceria ao princípio da causalidade, segundo o qual uma causa conduz a um efeito (quando A é, B é), sendo que o número de elos de uma série causal seria ilimitado. As leis naturais predizem eventos futuros e podem ser confirmadas ou não. Em não sendo aplicáveis, são falsas e devem ser substituídas.Já o âmbito do dever ser diria respeito às normas, enquanto atos de vontade que se dirigem intencionalmente a uma conduta considerada obrigatória tanto pelos indivíduos que põe as regras quanto do ponto de vista de um terceiro interessado, e que vinculam seus destinatários.O dever ser insere-se no domínio das ciências sociais e se explica não com base nas premissas de verdadeiro/falso, mas de válido/inválido. Este domínio obedeceria ao princípio da imputação (quando A é, B deve ser), sendo que o número de elos de uma série imputativa é necessariamente limitado. As leis jurídicas prescrevem, autorizam ou permitem condutas e admitem um certo grau de não aplicação, ou ineficácia, que não conduz à sua anulação."Segundo a Teoria Pura, a ciência jurídica não pretende com as proposições jurídicas por ela formuladas mostrar a conexão causal, mas a conexão de imputação entre os elementos de seu objeto."

Aqui, contudo, se deve sempre ressalvar o fato de que se trata de uma Teoria direcionada às Ciências Jurídicas, tendo sido empregada apenas como forma de demonstrar, uma vez mais, a enorme diferença entre o ser, por nós racionalizado, e o dever ser, que é afeito às relações que residem no mundo natural, atávico, instintivo.

Note-se, ainda que Kelsen também procura padrões, digamos, matemáticos, assim como Kant - "juízos a priori na matemática."

Cumpre, por fim, enfatizar que as Leis acabam derivando justamente desta nossa racionalização de nossos próprios instintos, são pesos e contra-pesos, freios pessoais, para que não continuemos a fazer sessões de enforcamento em praça pública, rodeados de vendedores de balas e amendoins.

Fazemos isso ainda, só que de forma mais velada e cínica. E os vendedores de amendoins continuam lá.

O ser é o que é, e o dever ser a gente inventa, por isso que este último sempre acaba sendo apenas uma corruptela dos fenômenos reais, pois, ao analisarmos o microcosmo, apenas bárbaros é o que somos, nos maltratando, desta vez, silenciosamente.


Ao menos os bárbaros eram menos hipócritas. Somos cínicos e hipócritas, ou então não poderíamos conviver diariamente em aparente sintonia e ordem. O barbarismo é simplesmente dissimulado em boas intenções.

Amamos ao próximo apenas quando não são os nossos vizinhos. Quando estão na Etiópia, como faz a Angelina, do Brad. Gente chata e neurótica.

Trazem negrinhos em caixas de suas viagens à África, depois contratam mucamas para cuidarem deles (sempre tudo igual, apenas disfarçado, como mencionei acima), tudo em nome de fenômenos eminentemente "pops". 

Tudo para aparecer um pouco mais, fazendo coisas que não fariam ao natural, nem, tampouco, querem fazer. Acham que querem. São orientados por seus promotores de imagem (!!)

Não precisamos de esmolas casuísticas. Precisamos de nossos egoísmos e de algum bom senso e compaixão, refletidos em ações menos "holofóticas", e mais silenciosas.

As coisas são e estão assim porque somos assim, então seria possível que a partir de singelas racionalizações pudessem os fatos serem mais justos do que são...mais estáveis e agradáveis. 

Mas não serão, pois se trata de vocação, por mais polidos que possamos eventualmente ser, assim como os arrogantes franceses, ou os colonialistas ingleses, e suas mesuras que acabaram dando certo, assim como a sua marinha de guerra e de saque, com seus piratas disfarçados de corsários.

Como quando se usa um hacker famoso e com passagens policiais, em favor da própria autoridade policial.

O que é o agradável afinal? Ficar vestido de azul de mãos dadas com alguém vestido de rosa e observando borboletas na primavera, ou sentar gostosamente em um antigo, encardido, vermelho, fétido e viciado sofá de uma casa de tolerância, consumindo charuto e absinto, para ver o "show" das vedetes? ???

Somos feitos do que somos feitos, a essência é a mesma, uns mais rudes, mais suínos, outros menos, mas também com as suas "suinidades". Um fósforo, um milhão. Ambos são furtos.

Somos feitos disso, e não vai mudar porque queremos apenas, e nem deveriam, sob pena de haver uma subversão dos próprios efeitos da natureza, e isso abalaria o "continnum" universal. Não racionalizemos o que não nos é dado racionalizar.

Não racionalizemos nem tentemos racionalizar um dever ser em detrimento daquilo que efetivamente é, pois não há como a criatura lutar contra seu criador.

Não convém racionalizar o que é instintivo, mas sim tentar adaptá-las da maneira mais harmoniosa.

Os fenômenos se repetem desde sempre, ainda que levemente mais polidos, pois, por exemplo, não costumamos mais queimar supostas bruxas, ainda que normal seja o decepar de cabeças pelos muçulmanos radicais.

Mas isso já acontecia desde a Guerra Farroupilha, e mesmo nas Malvinas.

Contudo, a essência é a mesma, pois nãao é o nome que designa o ser, e, por isso mesmo, aposto minha cabeça como ainda muitas são as pessoas que realmente querem queimar bruxas e afins em fogueiras públicas, como espetáculos, parte de seu sadismo.

Ora, não sejamos tão ocidentais, pois em vários lugares do mundo, como onde imperam estados islâmicos e tribos africanas, ainda permanecemos simplesmente na idade média

Somos bárbaros disfarçados de ovelhas. Basta que observemos a silenciosa felicidade do Brasil quando fuderam a gurizada da Candelária, ou os 111 do Carandiru, massacrados que foram por aquela eterna, tosca, sádica e ilimitada polícia de merda, que em nosso nome desenvolve as suas diárias barbáries.

E não venham argumentar que bandidos é que são os demônios, pois isso eu sei. Deles espero tudo. Fico estarrecido é quando vejo a polícia fazer isso, ora.

Sempre preservam aqueles que possuem algum poder e condição financeira, e tratam como bosta os hipossuficientes, como os bons covardes, defendidos sempre pelo grupo, pela farda, pela oficialidade, pelo corpo.

Fazem o que querem e nada acontece. Ser e dever ser. Eles são o que não deveriam ser. Um exemplo apropriado apenas. Poderiam ser os políticos, e as palavras seriam praticamente idênticas.

Por isso mesmo ainda temos que aguentar, agora, as milícias, que surreal. Parece piada. Antes fosse. Gente que faz o que quer, de modo descarado, e nada acontece.

Servir a quem? Proteger de quem?

E o nada da Justiça, um nada que demora. Isso acaba por incentivar equivocadas noções como a justiça com as próprias mãos e a desobediência civil, consequência da incompetência das instituições que deveriam fazer e não fazem.

É sempre o ser e o dever ser. E a estéril crítica que não oferece soluções, pois, infelizmente, não há. 

Existe apenas o alívio aparente, entre silenciosos desesperos, de crianças que já se convenceram de que não adianta berrar nos dias em que a mamãe não escuta.













sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

SUJO - GULLAR........GENIAL




Poema sujo

(trecho inicial)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como 
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma 
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela 
mais que bela 
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera 
nem Nara nem Gabriela 
nem Tereza nem Maria 
Seu nome seu nome era... 
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia 
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas 
constelações de alfabeto 
noites escritas a giz 
pastilhas de aniversário 
domingos de futebol 
enterros corsos comícios 
roleta bilhar baralho 
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa 
e de tempo: mas está comigo está 
perdido comigo 
teu nome 
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos 
se perdem pela vida caem 
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás 
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama, 
ou dentro de um ônibus 
ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris 
perfeitamente fora
do rigor cronológico 
sonhando 
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar, 
voais comigo 
sobre continentes e mares

E também rastejais comigo 
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país 
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror 
vos esgueirais comigo, mesas velhas, 
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado, 
dobrais comigo as esquinas do susto 
e esperais esperais
que o dia venha

E depois de tanto 
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo: 
te chamo aurora 
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema 
nas aparições do sonho 

- E esta mulher a tossir dentro de casa! 
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)
E todos buscavam

num sorriso num gesto 
nas conversas da esquina 
no coito em pé na calçada escura do Quartel 
no adultério 
no roubo 
a decifração do enigma

- Que faço entre coisas? 
- De que me defendo?

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o 
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento oblackout as 
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de 
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste. 
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava 
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste. 
A cada nova manhã 
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda. 
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo. 
Papagaios de papel.
Retreta na praça. 
Luto. 
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos

Do corpo. Mas que é o corpo? 
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio 
que guarda as vísceras todas
funcionando 
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite 
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida 
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar 
um caco de vidro 
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos 
enquanto discuto caminho 
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro 
dos céus da cidade estrangeira 
com a ajuda dos plátanos 
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
aberto

Meu corpo 
que deitado na cama vejo 
como um objeto no espaço 
que mede 1,70m 
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que 
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo 
meu corpo feito de água 
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio 
e me sentir misturado 
a toda essa massa de hidrogênio e hélio 
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi 
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração) 
tic tac tic tac 
enquanto vou entre automóveis e ônibus 
entre vitrinas de roupas 
nas livrarias 
nos bares 
tic tac tic tac 
pulsando há 45 anos 
esse coração oculto 
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva 
debaixo da capa, do paletó, da camisa 
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária 
meu coração de menino

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

RADIO BLÁ E A PSICOPÁTICA TENDÊNCIA ÀS GAIOLAS








"Niilismo (do latim nihil, nada) é um termo filosófico que atinge as mais variadas esferas do mundo contemporâneo (literatura, arte, ciências humanas, teorias sociais, ética emoral) cuja principal característica é uma visão cética radical em relação às interpretações da realidade, que aniquila valores e convicções. É a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao “porquê”. Os valores tradicionais depreciam-se e os "princípios e critérios absolutos dissolvem-se". "Tudo é sacudido, posto radicalmente em discussão. A superfície, antes congelada, das verdades e dos valores tradicionais está despedaçada e torna-se difícil prosseguir no caminho, avistar um ancoradouro" .
O niilismo pode ser considerado como um movimento “positivo” – quando pela crítica e pelo desmascaramento nos revela a abissal ausência de cada fundamento, verdade, critério absoluto e universal e, portanto, convoca-nos diante da nossa própria liberdade e responsabilidade, agora não mais garantidas, nem sufocadas ou controladas por nada. Mas também pode ser considerado como um movimento “negativo” – quando nesta dinâmica prevalecem os traços destruidores e iconoclastas, como os do declínio, do ressentimento, da incapacidade de avançar, da paralisia, do “tudo-vale” e do perigoso silogismo ilustrado pela frase de Ivan Karamazov, em Os Irmãos Karamazov,personagem de Dostoiévski"Se Deus está morto, então tudo é permitido" (na verdade trata-se de mera interpretação de um diálogo desenvolvido entre os irmãos Karamazov, com a "intervenção" do Diabo). Entende-se por Deus neste ponto como a verdade e o princípio. O niilismo não é, como a princípio pode parecer, uma postura extremada, envolvendo algum tipo de revolta, mas apenas uma visão honesta e imparcial da realidade — uma visão evidenciada em grande parte devido às descobertas científicas modernas.


"Tudo que é vida é Vontade de Potência, ou seja, onde há vida, há vontade de conservação e engrandecimento de vida. E tudo isso, que é apenas conservação da vida, não passa de decadência e declínio da Vontade de Potência, que é "[...] vontade de durar, de crescer, de vencer, de estender e intensificar a vida. É o mais forte de todos os instintos, o que dirige a evolução orgânica". (NIETZSCHE, 1985, p. 63)."


"Mas para entenderes minha palavra de Bem e de Mal: para isso quero dizer-vos ainda minha palavra da vida, e do modo de todo vivente. [...] Mas onde encontrei vida, ali ouvi falar a obediência. Todo vivente é um obediente. E isto em segundo lugar: manda-se naquele que não pode obedecer a si próprio. Tal é o modo do vivente. [...] Onde encontrei vida, ali encontrei Vontade de Potência ; e ainda na vontade do servo encontrei a vontade de ser senhor. (NIETZSCHE, 1983, p. 238, apud HEIDEGGER, 1971, p. 264-265)."


"Houve eternidades em que ele não estava, quando de novo ele estiver passado, nada terá acontecido...não há para aquele intelecto humano nenhuma missão mais vasta, que conduzisse além da vida humana... ele é humano... O intelecto como meio de conservação do indivíduo desdobra suas forças mestras no disfarce; pois este é o meio pelo qual os indivíduos mais fracos, menos robustos, se conservam... No homem essa arte do disfarce chega ao seu ápice... que quase nada é mais inconcebível do que como pôde aparecer entre os homens um honesto e puro impulso à verdade. (NIETZSCHE, 1987, p. 45-46)."


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Confesso, não me aguentei, tive que escrever algo. 

Escrever apenas, sem importar o juízo produzido no âmago de terceiros a respeito do que possa significar esta singela manifestação gráfica.

Em meio às demoradas e enfadonhas revisões de um primeiro livro que tentarei publicar, escrever algo novo não parecia apenas uma boa ideia. Parecia algo necessário.

Não que isso pudesse ser relevante para alguém. 

Basta que seja relevante para mim, pois se fossemos dar atenção às opiniões de terceiros sobre o que produzimos, ou seríamos deuses ou seríamos demônios.

Não se escreve por que se quer, mas sim porque se necessita. Quem escreve por que quer, escreve duro, opaco, desfocado, sem vida...

Não escrevemos por que alguém vai ler, ou não vai. Escrevemos porque devemos escrever, e isso poderá ou não redundar em algo diferente. 

Não estou preocupado com as fórmulas e métricas estabelecidas. Não estou preocupado com as repetições, ou então Fernando Pessoa nada teria escrito, já que aborda os mesmos temas de diversos modos diferentes.

Entre tantos outros. 

Quem escreve com vaidade, escreve sem alma, se distancia do que se deve imaginar que possa ser a arte.

Assim como o feijão que há horas está no fogo. Dispenso panelas de pressão, mas a maioria, a patuleia, não é obrigada a pensar o mesmo. Nunca foi, mesmo tendo sido.

Dei de comer à aranha. Dei de comer ao cão. Dei carinho à aranha. Dei carinho ao cão também, por que ele não querem só comida, eles querem comida, diversão e arte.

"Já não me preocupo se eu não sei porque, às vezes o que eu vejo quase ninguém vê..."

E por que eu não usaria esta frase no começo de vários escritos, se isso ocorre com tanta frequência?

Ainda mais quando as pessoas mais inteligentes que conheço, com o tempo, observei que estão sujeitas a acreditar em qualquer bobagem que se os apresente, e mesmo qualquer ser humano que se mostre aparentemente sedutor, olvidando da consideração que deve conferir aos seus.

Têm olhos, mas são cegos. Ou seus instintos mais primitivos e cretinos os cegam, prisioneiros que são. 

Passam anos sendo enganados, por mais nobres que sejam, ainda mais quando a nobreza passa a ser a sua principal fraqueza. Paradoxal.

Deveriam honrar aos seus, na medida em que merecerem, e não honrar linhagens externas, cujos propósitos não podem ser mais evidentes.

"Ingênuos malditos", como dizia o Nei Lisboa, festejado músico porto-alegrense. 

Às vezes artistas são festejados não apenas pelo imenso fato de serem geniais, mas por carregarem um pouco de da subjetividade regional de cada um de nós em seus trabalhos, o que torna certos apreciadores mais próximos ainda das manifestações de genialidade do autor da obra, seja em que campo da arte.

Cito, no caso, o Lisboa. 

Contudo, até preferiria estar citando o Flavio Basso, ou, simplesmente, Júpiter Maçã, recentemente falecido, e que muito mais tem a ver com meus fragmentos subjetivos regionais do que o próprio Nei, ainda que ambos habitassem o mesmo arredor.

Não me atenho à críticas e críticos, pois estes normalmente pertencem àqueles que tentaram, mas não conseguiram produzir nada, então apenas estudaram o assunto. 

Dependêssemos dos críticos, e estaríamos despojados de arte, pois esta é espontânea e por vezes não compreendida, durante muito tempo.

Por outro lado, e ainda mais óbvio, aqueles dependem do que se produz, e esta precisa apenas ser produzida.

Críticos não teriam emprego se não fosse o esforço de alguns. Muitas vezes estarão certos, pois o que se produz normalmente é um lixo. 

Noutras vezes errarão feio, e acabarão pagando por isso, por sua inerente falta de visão, pois se tivessem visão, fariam, não apenas criticariam.

Críticas são calculadas e partem de fórmulas frias, pré-estabelecidas, e do próprio amargor de quem é dotado aquele que nada conseguiu produzir, por mais que, externamente, e aparentemente, demonstre captar as formas de expressão artística. 

Críticos são eternos frustrados amargurados. Obtêm a sua natural empáfia justamente daquilo que lhes falta, senão empáfia não demonstrariam, mas sim esforço.

Sem artistas e mesmo os projetos de artistas, não existiriam os críticos. Mas aqueles continuariam existindo. 

Ou seja, críticos nada mais são que um inútil sub-produto da arte, quando consideramos que as pessoas possuem arbítrio, e acabam, mais cedo ou mais tarde, abraçando aquilo que lhes possa ser útil.

A arte segue os seus caminhos livremente, o que é ruim nunca será bom, e o que é bom, por mais tarde que seja descoberto, sempre será bom.

Van Gogh, ao falecer, tinha vendido apenas um quadro. E comprado por seu irmão, de modo a incentivar o trabalho do outro. Este, ao menos, soube cumprir o papel que se espera dos irmãos.

E assim ocorreu com vários outros, mesmo aqueles que trilharam os caminhos da ciência, algo que, a meu sentir, poderia e deveria ser considerado uma forma de expressão artística, lato sensu, assim como Galileu Galilei.

Os críticos, pois, que vão para a puta que os pariu, ou mais longe.

Sempre obtive a nota máxima no que diz respeito à "redação". E o mais importante, jamais fiz rascunho de um texto. Não será agora que passarei a fazer.

Rascunhos são podas. Podas não pertinentes, podas que se originam de pós-reflexões conscientes acerca daquilo que se escreveu, representam a censura que fazemos a nós mesmos, em relação à ideia original.

Não trabalho com rascunhos. No máximo faço algumas concessões aqui e ali. 

Pelo contrário, se leio algum texto escrito por mim, pouco retiro. O que mais faço é acrescentar, ou seja, reforçar a ideia.

Contudo, nenhuma destas iniciais considerações fazem parte do objetivo do presente escrito. 

São apenas o que são - "iniciais considerações". A nata. O que vem antes do princípio. O nada teórico, que acaba sendo desencadeado pelo "big bang".

Eis o "big bang". E eis seu término. Restam as ideias. Passemos a elas.

E jamais esqueçamos: enquanto isso os não homens continuam aniquilando as mulheres de maneiras covardes e desleais, bem debaixo de nossos narizes.

E nada fazemos para impedir. Falo em fazer algo de verdade.

Não serão leis estúpidas e cretinas que impedirão os agressores. Serão associações de defesa, compostas por voluntários que ofereçam os seus esforços para que estas injustiças não sejam mais tidas como anormalidades normais do cotidiano.

Várias pessoas se ofereceriam para cumprir estes turnos, mas a Segurança Pública e a Lei não permitem tal prática. MAS, AO MESMO TEMPO, NADA FAZ PARA IMPEDIR, além de debochar das mulheres quando estas procuram as delegacias, especializadas ou não.

Pois são apenas funcionários públicos, e não estão interessados em coisa alguma além de cumprir o seu horário de expediente e depois sair correndo para as suas casinhas pouco criativas. 

Para certos ofícios, é necessário que tenhamos vocação. Concursos públicos não resolvem nada, ainda mais que oferecem estabilidades.

Se fizermos uma enquete, alguém que faz um concurso público, é normalmente alguém que procura conforto e segurança, ou seja, é motivada por impulsos eminentemente egoístas.

Os demais se enquadram em duas outras classes. Empresários e os desesperados, os quais compõem a maioria esmagadora de nós humanos.

Espectadores. Expectativas demais. E egoístas demais. Sonhos errados. Pensamentos deturpados levam a deturpadas existências.

Existências que sequer conseguem proteger a si mesmos, quanto mais os pássaros e as mulheres.

O homem  é realmente o lobo de si mesmo. E o inferno é o outro, não é um "serzinho" vermelho, guampudo e com um rabo pontiagudo, no meio do enxofre e do fogo. 

Somos nós mesmos, segundo Sartre, mas não só isso. Segundo o que eu mesmo acredito.

Teorias não faltam, assim como as igrejas evangélicas. Faltam é mentes que adotem as teorias certas. 


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Hoje pretendia apenas falar sobre pássaros e gaiolas. Em sentido amplo, não apenas literal.

Quão patéticas, infelizes e cruéis são as gaiolas onde depositamos os pássaros. Quão infelizes são os pássaros confinados em cruéis e claustrofóbicas gaiolas.

E, partindo das impressões surgidas a partir da atenta observação cotidiana daqueles que aprisionam seres em gaiolas, não apenas pássaros, concluí que é um fenômeno que acaba se estendendo a todos os aspectos da vida daquele que aprisiona.

Pois quem tem a tendência, o faz em todas as suas manifestações, não apenas em relação à inocente ave, senhora que NÃO é, de seu destino.

E a forma é livre, assim como o conteúdo. E o vazio poucos preenchem, e, se o fazem, o fazem por fazer. E sentimos sono.

Sendo assim, prossigamos.

Não pretendo me arvorar em defensor dos animais. Não se trata disso, ao menos no presente escrito, ainda que, noutras oportunidades, haja dedicado todas as linhas a esta questão, de maneira direta e crua.

Como são as vísceras. 

Cruas, às quais somos simplesmente indiferentes, pois, quando a dor não nos pertence, somos feitos de pedra, não externamos descontentamentos e tristezas.

Como se verifica no caso de São Paulo, e os 111 do Carandiru, para quem não foi direcionada a nossa habitual piedade, pois esta, habitualmente, é negligente e conveniente. 

Como se observa, escrever, às vezes, é apenas se justificar.

Retornemos, contudo, ao tema em debate.

Apenas um psicopata, seja em que grau for, dedica boa parte de seu tempo, e de sua não dedicação, a manter uma ave em gaiola, qualquer ave que seja.

Na verdade, qualquer ser de que se esteja a tratar, mas, no caso das aves, minha aversão acaba sendo acentuada, pois elas não apenas possuem os raros dons da existência e da locomoção em terra, como também, e formidavelmente, podem alçar voos.

Voar é algo fantástico. Não se precisa comer merda para saber que não é bom. 

Não se precisa voar para saber que é bom, ainda mais quando os voos são bastante frequentes em meus oníricos estados.

Pois desde logo precisamos fazer a cisão da existência humana em quatro principais planos, mesmo que dois deles residam apenas no plano feérico, das coisas que se deseja intensamente, mesmo se nunca as possa ter.

Os dois primeiros planos são bastante compreensíveis, imediatos, e não mediatos. 

Fazem parte do enorme conjunto das coisas que se sabe ou se imagina saber, do alto da arrogância de nossos baixos intelectos, ignorantes que somos em relação à força de nosso inconsciente.

E, por isso mesmo, lotamos estes estúpidos, inóspitos e arquitetonicamente deploráveis "templos" ditos "evangélicos" (tudo é evangélico) - (estruturas retiformes e sem criatividade, pintadas de branco e destinadas a colocar o maior número de pessoas que consigam acreditar em mais uma das crenças, as quais, assim como os políticos, apenas fazem engambelar e conduzir ovelhas ignaras e despreparadas).

Pois nesta órbita mais imediata, podemos situar os dois primeiros planos da existência humana, acima aludidos, ou seja, termos nascido e, além disso, poder exercitar esta possibilidade até de maneira virtuosa, alcançando o máximo que se possa no que diz com a enorme gama de suas mais prodigiosas manifestações.

Ou, ao menos, tentando, modo consciente, ou então não é tentar, é exercitar tendências atávicas. 

E, conforme também referi acima, sempre almejar os dois outros planos, mediatos e feéricos, do fato de existir, ou seja, sempre desejar ser eterno, e sempre desejar poder voar.

Este, aliás, o link que fiz com o assunto relacionado aos pássaros e suas prisões em gaiolas, promovidas por verdadeiros psicopatas existenciais, tema em relação ao qual, somos repletos de exemplos. Vivos ou mortos.

A propósito, um dos meus sonhos mais recorrente e desejados são justamente aqueles em que voo, até mesmo porque sempre voo do mesmo jeito, o que confere tonalidades muito mais realistas a estas viagens oníricas.

As quais, por esta mesma razão, acabam parecendo paralelos oníricos conscientes, onde o espaço da inconsciência é bastante reduzido. 

Onde podemos ter a sensação bastante palpável de que se pode lidar com o fato inconsciente, em algum grau, por menos intenso que seja.

A questão não se resume ao simples e óbvio fato de que o ato de aprisionar animais em geral em gaiolas (incluindo o homem inocente) e, principalmente, aqueles que voam, constitui uma espécie de tortura institucionalizada, verdadeira maldade que se protrai no tempo, e se torna um exercício de agonia permanente para o animal que estiver em situação que tal. 

Mesmo que seja um homem. Este, ao menos, mais estrutura mental possui para compreender os motivos de seu cárcere, quer concorde ou não com estes mesmos motivos.

Pode, ao menos, odiar o seu algoz, possibilidade sequer alcançada às aves, apesar de serem evidentemente hipossuficientes.

Em vários casos, sequer as aves conseguem abrir as asas, em virtude do diminuto espaço em que confinadas se encontram.

Um dos efeitos disso, é que, modo frenético e previsível, acabam gritando o dia todo, pois, se formos pensar bem, é a única coisa que lhes resta.

Acabam entrando em verdadeiros estados de loucura, na medida em que se possa considerar a loucura de uma ave, o que é bastante razoável, debatendo-se inutilmente em seus odiosos habitáculos, e defrontando-se permanentemente com a ausência da possibilidade de exercitar as suas tendências.

Não é o humano que se encontra em tal condição, é a ave. O que surpreende mesmo é que, mesmo sendo o humano dotado de todas as capacidades intelectivas por demais conhecidas, não consegue produzir uma situação mental hipotética, onde ele mesmo fosse a ave.

Colocar-se no lugar do outro. A famosa alteridade. Possibilidade dada aos humanos, contudo, não captada por todos, propositalmente ou não, por mais paradoxal que isso possa soar.

Assim, aqueles humanos que desenvolvem estas práticas de maneira habitual e sem qualquer tipo de constrangimento, são catalogados imediatamente como pertencentes a classes e subclasses de psicopatas existenciais, conforme a intensidade de suas práticas.

Ao analisarmos de maneira não demorada, acabaremos logo percebendo que não apenas a ave é colocada em uma gaiola, mas também os semelhantes a ele diretamente subordinados, bem como as suas próprias vidas.

Por isso mesmo é que optei por colocar a questão de maneira menos melodramática do que sintomática e fatalista. 

As coisas são o que são, e, após a choradeira é que começa a parte prática, o que interessa vem à tona.

É como garimpar ouro, basta que se analise as técnicas, para que a metáfora possa ser entendida.

A mesma pessoa que observo achar normal o ato de aprisionar aves em cubículos nefastos e indecentes em termos espaciais etc., é a que observo engaiolada na vida, em si mesmo, em suas acentuadas imperfeições, sendo estas imperdoáveis, e suas inevitáveis prisões pessoais, derivadas da ignorância e do alcance limitado em termos de sensibilidade.

Seres menos aprimorados não apenas geram e criam seres menos aprimorados, mas também aprisionam seres hipossuficientes (apenas, não falo em menos aprimorados, pois papagaios e araras são aprimorados dentro do que a lógica os permite).

Do mesmo jeito que aprisionam aves inocentes, aprisionam aqueles que estão a sua volta, como esposa, filhos e familiares em geral. Da mesma forma como internamente se sentem aprisionados.

Vivem tal qual suas aves e humanos diretamente a eles subordinados - engessados.

Assim como fazem consigo mesmos, tal qual abordado acima, e com aqueles que estão a sua volta, tópico final deste escrito. Tópico complementar.

Os que estão à sua volta não são apenas as pobres aves inutilizadas em vida, que os rastejantes humanos mantêm aprisionadas em gaiolas minúsculas, que sequer honram a própria e verdadeiramente milagrosa manifestação existencial daquela ave que ali habita, se é que se pode chamar de "habitar".

Pronto, terminei o feijão. O presente texto se desenrolava ao mesmo tempo em que eu produzia a minha feijoada. Nada melhor do que sentir desejo por aquilo que se cozinha, quando se está a falar em fomes intensas.

O feijão foi feito voando, assim como o "bird", Charlie Parker no Jazz, ou o Amadeus na música clássica, ou os bons cozinheiros em suas cozinhas.

Assim como a porra da ave que não quer passar a vida confinada, nem sequer entende tal degradante condição. Assim como as notas que querem voar livres. Assim como nós deveríamos querer, não só para nós, como para os nossos próximos.

E reflitamos sobre os pássaros aprisionados em gaiolas.

Assim sendo, malditos sejam aqueles que imaginam ser algo normal prender as aves em minúsculas gaiolas. 

E malditos sejam aqueles que aprisionam e vivem aprisionados, sendo certo que os dois fenômenos possuem a mesma origem.

Hail Caesar!!!