"HORAS RUBRAS
Horas profundas, lentas e caladas,
Feitas de beijos rubros e ardentes
De noites de volúpia, noites quentes Onde há risos de virgens desmaiadas
Oiço olaias em flor às gargalhadas...Tombam astros em fogo, astros dementes
E do luar os beijos languescentesSão pedaços de pla's estradas...
Os meus lábios são brancos como lagos...Os meus braços são leves como afagos,Vestiu-os luar de sedas puras
Sou chama e neve e branca e misteriosa...E sou, Talvez, na noite voluptuosaÓ meu Poeta, o beijo que procuras!"
Florbela Espanca
Intelectuais, no verão, sem comportam como putas. Principalmente à noite. São como raparigas à sombra da lua. Em flor.
Ainda bem que, normalmente, pertencem a localidades onde prevalece o clima frio.
Ainda bem que, normalmente, pertencem a localidades onde prevalece o clima frio.
Não que eu prefira os intelectuais às putas. Pelo contrário.
Estas, ao menos, além de filosofar, uma filosofia mais crua e menos influenciada por fatores políticos e diplomáticos e morais, são menos hipócritas e sua vaidade mais admitida, por isso mesmo mais palatável.
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O equilíbrio pode nascer do fato de cortejarmos a insanidade, como diz o RR, alguém homenageado ao longo de todo o texto.
Contudo, pode ocorrer o contrário, de modo que, ao optarmos por um tal caminho, devemos estar cientes das eventuais consequências derivadas do risco envolvido no tênue limite existente entre uma e outra condição.
Em algum momento o abismo se nos mostra e diz: "decifra-me ou te devoro." E, após os primeiros passos, não há retorno.
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Noites quentes onde habito. Onde, agora, habito.
Agora é aqui que habito - "em algum lugar no fim do fundo da América do Sul", como o "Joaquim Louco", do Vitor Ramil.
Em qualquer lugar em que se habite, contudo, as motocicletas e motores ruidosos em geral, sempre vão reivindicar atenção às três da manhã, assim como demônios e almas perdidas em geral.
Principalmente em noites quentes...e urbanas, onde o anoitecer tem som de Jazz e cheiro de pinho, mofo, comida descartável, diesel e desespero.
Nas não urbanas, o que bradam são os sons aerados, rápidos e apitados dos facões e punhais traçando o ar. O desespero também está sempre presente.
Faz parte da condição humana - estar vivo - náusea.
Ainda mais quando o tempo começa a esquentar. Assim como as mariposas. O humano é apenas o humano.
Isso já me incomodou um dia. Agora, e novamente citando o líder da Legião, vejo que se trata apenas de "música urbana", algo que simplesmente está ali, e sempre estará, inexoravelmente.
Quando o tempo começa a esquentar tanto intelectuais como putas aumentam a intensidade do volume de seus vaidosos shows particulares, pois, no fundo, seu funcionamento é o mesmo.
Gritam o que não sentem.
Falam sobre o que não conhecem, pois sabem que o "poeta é um fingidor, e chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente", e sabem também que aqueles que "leem o que escreve, na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve...mas só a que eles não têm."
O volume de suas manifestações sonoras vêm a ser apenas a medida de suas vaidades, no entanto, em virtude deste mesmo volume sonoro, ainda se pode aquilatar suas medidas de suas maldades.
Enquanto isso, finjo estar concentrado lendo amenidades em uma revista de amenidades, onde, estranhamente, sempre se encontra ao menos uma reportagem interessante.
Não gosto de estar em um local público, sozinho, sem ter algo para ler.
Qualquer coisa serve...leria (leio) qualquer besteira, nestas ocasiões, sob pena de parecer louco, homossexual, ou tarado, nada que eu tenha algo contra qualquer uma destas categorias. Nem que eu tenha a favor.
Trata-se apenas de fatos.
Pois lá estava eu, entretido em leituras amenas para disfarçar minhas vis intenções em relação às fêmeas que habitavam o recinto e as camareiras e seu rústico e não revelado encanto, escondendo suas humanas intenções.
Tudo isso em meio a atitudes ciumentas, despeitadas, territoriais e sutilmente arrogantes de "machos" contrários à minha enigmática presença, o que acaba por confrontá-los com suas fraquezas sempre convenientemente esquecidas, mas sempre latentes. Vidas secas.
E homossexuais eventuais, como sói ocorrer, mal-disfarçando suas intenções por meio de patéticos teatros.
E lá estavam eles, sempre querendo ser ouvidos, mesmo em silêncio. Os seres todos que habitavam aquele bar.
E lá estavam eles, sempre querendo ser ouvidos, mesmo em silêncio. Os seres todos que habitavam aquele bar.
Eles e suas vaidades intelectuais. Eles e suas óbvias exteriorizações de instintos mediatos.
Ou não. Neste caso eram. Acabei achando, com o tempo, que são as mais engraçadas.
As outras modalidades de exteriorização de vaidade, ainda que em um primeiro momento pareçam mais divertidas, são tão estúpidas e repetitivamente previsíveis que acabam chamando menos a atenção com o passar do tempo.
Saudade de escrever ouvindo The Dark Side Of The Moon. Saudade de escrever. Horas profundas, lentas e caladas, como diz a Florbela.
As suas vaidades ruidosas eram como cachoeiras de informações, as quais, quando envolviam termos estrangeiros (limitados propositalmente apenas a um idioma), era pronunciadas em volume ainda mais elevado, e com pequenas e discretas olhadas no entorno, onde bobos observavam-nos com suas bocas entreabertas, e sábios entretinham-se.
São os discretos charmes da burguesia, fenômeno muito bem observado pelo cinema de Buñuel.
Cuspindo informações decoradas e aceitas em grupos intelectuais, sem qualquer ousadia, em tom pedante, e analisadas a partir de opiniões já aceitas e debatidas, também decoradas, sem luz arte e criação, por mais que pareçam entender do que estão a tratar.
Riem por rir. Falam por falar. Repetem e querem comer e trepar apenas. E depois cagar escondido, assim como peidam. Peidam escondido e condenam às escancaras. Não as suas fraquezas, mas as alheias.
E maldades despeitavam, sempre silenciosamente. Aquelas, maldades inconscientes, fruto de fraquezas. Estas, maldades calculadas, frutos de de tendências.
A maldade da tendência costuma ser silenciosa como a sabedoria, pois carrega bastante sabedoria, de modo que apenas faz optar, modo consciente, pelo meio mais obscuro para alcançar seus objetivos.
Por isso mesmo é que um dos sinais silenciosos mais flagrantes de elogio, vem a ser justamente o despeito revelado pela maldade, em seus ocultos sinais, e não a fala fácil e política do humano em geral, bem intencionado ou não em termos do requisito da vaidade, o qual diz respeito apenas a si mesmo, e não à coisa analisada.
Se Deus existisse, diria que "Deus mora nos detalhes", e estes não são revelados ou ditados por elementos facilmente visíveis ou perceptíveis, senão que vêm a ser um conjunto de imperceptíveis e inconscientes manifestações humanas inatas ou derivadas de um conjunto de padrões previamente observados, e que levam o observador atento, e normalmente não dotado daquelas características (poucos), que conseguem captar tais sutis aparições, pois portadores de algum tipo de percepção fina, como a sintonia é para o rádio.
Quando reflito sobre tais considerações, sempre lembro daquela frase da música da Legião que dizia: "já não me preocupo se não sei porque...às vezes o que eu vejo quase ninguém vê..."...
Aliás, toda a letra da música "Quase sem querer", da Legião, assim como a melodia, são ótimas...nem preciso dizer...:
Tenho andado distraído Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso Só que agora é diferente Estou tão tranquilo E tão contente
Quantas chances desperdicei Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo Que eu não precisava Provar nada pra ninguém
Me fiz em mil pedaços Pra você juntar E queria sempre achar Explicação pro que eu sentia
Como um anjo caído Fiz questão de esquecer Que mentir pra si mesmo É sempre a pior mentira
Mas não sou mais Tão criança a ponto de saber tudo
Já não me preocupo Se eu não sei porquê Às vezes o que eu vejo Quase ninguém vê E eu sei que você sabe Quase sem querer Que eu vejo o mesmo que você
Tão correto e tão bonito O infinito é realmente Um dos deuses mais lindos
Sei que às vezes uso Palavras repetidas Mas quais são as palavras Que nunca são ditas?
Me disseram que você estava chorando E foi então que percebi Como lhe quero tanto
Já não me preocupo Se eu não sei porquê Às vezes o que eu vejo Quase ninguém vê E eu sei que você sabe Quase sem querer Que eu quero o mesmo que você
O grande erro em que a maldade acaba por cometer é desconhecer o fato de que a sorte não acompanha apenas aos que ousam, como disse o Alexandre da Macedônia, senão que uma tal ousadia deve estar sempre aliada à ideia de conservação de valores universais, ou seja, como diz o Spyke Lee - Faça a Coisa Certa.
Se precisarmos explicar a alguém o que é fazer a coisa certa com base em valores universais, não percamos tempo. Seria como explicar uma piada depois de contada.
Ele apenas riu e se foi. Ele e seus punhais, pois a ignorância tende a ser traiçoeira, pois traiçoeira é a covardia.
Eu...bem...eu apenas torcia para que o meu creme de ervilhas demorasse um pouco mais, ainda que tivesse lançado mão do artifício da caipirinha para que meu tempo, eventualmente, pudesse render mais, pois há aqueles que precisam dos cotidianos sociais, e outros apenas os colhem como fonte de inspiração.
Passam ao largo. Fantasmas.
Como estivesse demorando o creme de ervilhas, pensava em outra música da Legião que adoro como um hino...
Parece cocaínaMas é só tristezaTalvez tua cidadeMuitos temores nascemDo cansaço e da solidãoDescompasso, desperdícioHerdeiros são agoraDa virtude que perdemos
Há tempos tive um sonhoNão me lembro, não me lembroTua tristeza é tão exataE hoje o dia é tão bonitoJá estamos acostumadosA não termos mais nem isso
Os sonhos vêm e os sonhos vãoE o resto é imperfeitoDissestes que se tua vozTivesse força igualÀ imensa dor que sentesTeu grito acordariaNão só a tua casaMas a vizinhança inteira
E há temposNem os santos têm ao certoA medida da maldadeE há tempos são os jovensQue adoecemE há temposO encanto está ausenteE há ferrugem nos sorrisosSó o acaso estende os braçosA quem procuraAbrigo e proteção
Meu amor!Disciplina é liberdadeCompaixão é fortalezaTer bondade é ter coragemLá em casa tem um poçoMas a água é muito limpa
Pego minha sopa, termino a caipirinha com um vigoroso e imprevisível gole, e dirijo-me a meus aposentos, pois já era observado mais do que o necessário, e minhas inspirações já estavam colhidas.
Momento este em que a lógica coletiva é quebrada, pois lógica não havia, mas só neste momento é que percebem. Relutam. Mas continuam agindo do mesmo modo, ainda que cada vez mais amargos, pois outra opção não lhes restaria.



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